O que aprendi com Ansel Adams

 

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© Fernando Kaskais

O que aprendi com Ansel Adams

Ansel Adams é um dos gigantes da história da fotografia. Como fotógrafo, eu nunca estive muito interessado em fotografia de paisagem. No entanto, desde a altura em que descobri o trabalho de Adams, passei a estudá-lo. Porquê estudar alguém, que faz um tipo de fotografia que não nos interessa muito? Por causa da sua técnica, do seu minimalismo Zen, e da sensação de calma que emana das suas fotos. Mesmo que não aprecie um fotógrafo de paisagens, a sua filosofia pessoal pode inspirar-me para outro géneros de fotografia. E na verdade há algumas coisas que retive de Adams.

1º – Não se tira uma fotografia, faz-se uma fotografia. Esta é uma velha máxima de Adams que ao “contrário” de Stieglitz, via a fotografia como uma forma de arte. Não bastava clicar no botão, para ele era preciso passar algum tempo no laboratório (câmera escura) para “dar á luz” aquilo que tinha visto no mundo real. Eu penso o mesmo, embora hoje em dia, a maior parte das vezes, o “laboratório” esteja no ecrã do computador, devemos tentar dominar minimamente as técnicas de edição, e pós-processamento, para melhorar a estética das fotos, e se possível, realçar-lhes o humor e a emoção. No entanto, não vale a pena gastar muito tempo na câmera escura digital, a tentar criar peças de arte, se a fotografia (base) em si não for boa. Por muito que as técnicas de edição tenham evoluído, ainda não conseguem transformar uma má fotografia, numa fotografia excelente. Não compartilho a ideia feita de que, “mexer na foto” depois de ela ser tirada é batota.

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© Fernando Kaskais

2º-Noção do espaço. Numa fotografia de paisagem, a posição é tudo. Onde estamos situados no que diz respeito á paisagem, vai determinar o nosso ponto de vista, o clima da fotografia, bem como a composição. Na fotografia de paisagem muitas das vezes isso implica grandes caminhadas com montes de equipamento. O engraçado, é que o mesmo se pode aplicar a qualquer tipo de fotografia. Talvez com a excepção do volume de equipamento. Na fotografia de rua ao mexer os pés á procura de assunto, o fotógrafo pode andar quilómetros sem dar por ela, ao procurar um ângulo melhor, seja subindo a algo, ou pondo-se de cócoras, também está a lidar com a noção de espaço e localização. Os princípios são os mesmos, numa escala e ambiente diferentes.

3º-Pré visualizar as nossas fotos. Adams tentava sempre pré visualizar as suas fotografias, não olhar só para aquilo que tinha á sua frente, mas tentar imaginar como é que a foto ia ficar quando estivesse finalmente pronta. Toda a gente já passou pela experiência de ver alguma coisa que o inspira, clica no botão do obturador, e quando olha para o visor LCD, fica tremendamente decepcionado. O que vemos no visor, não foi aquilo que tínhamos visto no mundo real. Um bom fotógrafo deve ter a capacidade de traduzir o que vê no mundo real, e fazer com que apareça na fotografia. Para que isso aconteça, é preciso aprimorar a composição, compreender as configurações técnicas, compreender a sua própria câmera, saber onde ficar, ou onde estar, quando disparar e como tratar as imagens.

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© Fernando Kaskais

4º-Ignorar os críticos. Confesso que esta é uma das minhas ideias preferidas. Mesmo alguém tão consagrado como Ansel Adams, teve críticos e “inimigos” durante a sua vida. Como é que ele lidava com os críticos? Simplesmente ignorando-os. Adams achava que a maior parte dos críticos eram superficiais, e não percebiam o seu trabalho, vendo-o simplesmente como um fotógrafo de cartões postais. E tinha razão, não importa a qualidade do seu trabalho, por muito boa que seja, você nunca pode agradar a 100% do público com a sua fotografia. Na verdade, acho que para alguém se tornar um grande artista, o melhor caminho é não comprometer a sua própria visão. O interesse está nas fotografias que conseguimos (ou não) fazer, e não no que os outros dizem delas. Não ficar eufórico com as boas críticas, partindo do princípio de que quem as faz, não percebe nada de fotografia, nem ficar frustrado com as más críticas, seguindo o mesmo princípio.

5º- Música e fotografia. O objectivo de Ansel Adams era ser pianista clássico, mas a certa altura decidiu enveredar pela fotografia. Apesar das opiniões dos amigos que diziam que a câmera não conseguia expressar a alma humana, Adams decidiu tentar. Argumentava que a talvez a câmera não pudesse, mas ele podia tentar através da câmera. Além disso, a música trouxe-lhe disciplina para a sua fotografia. A música exige um rigor e precisão, que se vieram a revelar bastante úteis na fotografia de Adams. Isto serve de inspiração, para quem gosta de dança, música, escultura, teatro ou outra qualquer paixão. Como podem estas experiências estéticas tão diferentes, tornar a nossa fotografia mais criativa? Os teóricos chamam-lhe “polinização cruzada”, ou seja, pegar em dois campos diferentes da arte, cruzá-los e conseguir algo original. Ansel Adams conseguiu, e a sua filosofia e imagens inspiram todos aqueles que gostam de fotografia, independentemente do tipo de fotografia que praticam. Boas fotos.

© Fernando Kaskais

© Fernando Kaskais

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