O que aprendi com Araki (Nobuyoshi Araki)

© Fernando Kaskais
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O que aprendi com Araki ( Nobuyoshi Araki)

Nobuyoshi Araki (mais conhecido como Araki) é uma das figuras mais controversas no mundo da fotografia. Enquanto é tratado como uma estrela do rock no Japão, uma grande parte do mundo exterior vê seu trabalho como doentio, pornográfico, e misógino. Isto não poderia estar mais longe da verdade. Descobri Araki por tabela, ou seja, quando “andava às voltas” com o trabalho de outro fotógrafo japonês de quem também gosto muito Daido Moriyama, vi por acaso umas imagens de um dos muitos livros de Araki. Imagens fortes, meninas amarradas com cordas, muita nudez, close-ups dos genitais, mas as suas imagens de cariz sexual eram diferentes das deste tipo de imagens. Aquilo não era bem pornografia, era mais um olhar desafiador, uma espécie de olhar á Pasolini. E embora ele tenha 75 anos(em 2016) a verdade é que dormiu, e ainda dorme com a maior parte dos seus modelos femininos. Um dos meus trabalhos favoritos de Araki é ” Sentimental Journey “, onde ele documenta a sua vida pessoal com a sua esposa . Ele mostra a sua lua de mel, o seu casamento, a sua doença, a morte dela, e a sua sensação de solidão. É um livro incrivelmente íntimo, e algo que toca a alma.

Nobuyoshi Araki – Diary sentimental journey from Matej Sitar on Vimeo.

Embora ele não seja um tradicional “fotógrafo de rua”, é conhecido principalmente pelos seus retratos e trabalhos de nu, podemos aprender bastante com a sua “filosofia fotográfica”. Eis algumas ideias base.

1º A Fotografia pode funcionar como um diário. Para Araki as fotos são como as entradas de um diário. As suas fotografias são uma meditação sobre o tempo, a vida e a morte. Em certa medida não só documenta os eventos do dia, como “prevê” o que vai acontecer no futuro. Araki diz que a fotografia é “mentira”porque nós, enquanto fotógrafos, estamos a criar a nossa própria versão da realidade. Não há verdadeira “objectividade” na fotografia, porque nós sempre re-interpretamos aquilo que vemos. Em 2010, ele podia criar um falso diário de 2015.

2º A Vida é nostalgia. A fotografia, assim como a própria vida, é nostálgica. As fotografias são naturalmente nostálgicas; porque no mesmo segundo em que clicamos no botão do obturador, o momento passou. Portanto, quando olhamos para nossas próprias fotografias da infância, ou fotos tiradas algumas décadas antes, olhamos para esses momentos com nostalgia. Em certa medida a nostalgia é importante para um fotógrafo, porque nos permite apreciar o passado. Ela ajuda-nos a lembrar a beleza, as pessoas, e os eventos passados. No entanto, por vezes, a nostalgia pode paralisar-nos enquanto fotógrafos. Não apreciamos o momento presente (e futuro possível), porque romantizamos excessivamente o passado.

3º Fotografar sem preconceitos. Um dos aspectos mais desafiadores da fotografia é fotografar sem preconceitos. Nós, fotógrafos ocidentais, somos condicionados culturalmente para fotografar com preconceito. Estamos “programados” para só fotografar “coisas interessantes”. Mas no Oriente, eles são muito menos exigentes. Uma boa parte da filosofia oriental vê o dia a dia, e os objectos de todos os dias, como interessantes e significativos. Podemos olhar para objectos comuns que temos em casa, e torná-los interessantes através da fotografia. Isto, se não estivermos condicionados para pensar que são assuntos “chatos” e “clichés”. É evidente que, isto não significa que depois compartilhemos tudo aquilo que fotografamos. Mas manter a imaginação e a paixão vivas, é importante.

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© Fernando Kaskais

4º A Fotografia é subjectiva. Ao contrário dos fotógrafos que sentem que tem que eliminar a sua subjectividade, ele considera-se um fotógrafo subjectivo, colocando-se ele próprio dentro do “assunto” a ser fotografado. Diz com um certo humor que, as melhores fotos que tirou, foram as fotos que foram tiradas por outras pessoas, quando entregou a câmara a alguém e pediu que o fotografassem de certa maneira. Na verdade, quando fotografamos seja aquilo que for, estamos a fotografar a nossa maneira de ver as coisas. Estamos a mostrar o nosso ponto de vista pessoal, e subjectivo do mundo.

5º Não ser um profissional. Em vez de tentar fazer fotografias que parecem fotografias profissionais, devemos tentar que as nossas fotos sejam (ou pareçam ser) íntimas, que tenham o nosso cunho, algo pessoal. A ideia glamourosa de um fotógrafo profissional com montes de equipamentos sofisticados, luzes, assistentes e modelos, não passa disso mesmo, deslumbramento, que na sua essência não tem nada a ver com a fotografia, mas sim com um estilo de vida. Um fotógrafo, ou aspirante a fotógrafo, não precisa de ser um profissional com equipamento caríssimo para conseguir fazer fotografias fantásticas. Também não precisa de ir para lugares exóticos para fazer boas fotografias. Embora a maior parte de nós não goste dos sítios onde vive, é no nosso “quintal” que, provavelmente passaremos mais tempo a fotografar. Araki fez a maior parte do seu trabalho na sua casa na cidade de Tóquio. Claro que pensamos que Tóquio é uma cidade exótica, mas Araki declina (na maioria das vezes) convites para fotografar no estrangeiro. Ele fotografa em Tóquio não porque seja exótica, mas porque lhe é familiar. Esta é uma boa ideia para os outros fotógrafos. Fotografarem o que está ao seu redor e perto deles. Para fazer boas fotos, a um fotógrafo basta seguir a sua natureza, e fazer como o Araki que, tira fotos com a mesma naturalidade com que um cão se coça. Ele faz aquilo que lhe parece natural. Faça o mesmo. Siga a sua natureza, não a de outra pessoa qualquer. Boas fotos.

© Fernando Kaskais
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