O que aprendi com Garry Winogrand.

backup-1154© Fernando Kaskais

O que aprendi com Garry Winogrand.

Winogrand é um dos meus fotógrafos favoritos, embora não seja dado ao minimalismo, bem pelo contrário, a maioria das suas fotos contém montes de “informação”. Além disso, é muitíssimo prolífero, parece que fez qualquer coisa como 5 milhões de fotografias. Convenhamos que é muita fotografia. De entre as muitas coisas que podemos aprender com ele, eis algumas que para mim são mais significativas.

1º Fotografe muito. Como já disse, fotografou imenso. Era capaz de gastar um rolo inteiro,enquanto percorria um quarteirão de NY. Estava permanentemente atento, e se via uma cena que o interessava do outro lado da rua, metia-se no meio do tráfego (por vezes arriscando a vida) para ir capturar a imagem que queria. Ele morreu em 1984, por essa altura se eu conseguisse usar um rolo inteiro num dia, já era muita sorte. Como é evidente, o contexto era diferente, eu não estava em NY, mas mesmo que estivesse, duvido muito que fizesse um rolo por quarteirão. Quando morreu, deixou imensos filmes por revelar (2500), o homem fotografava a tal ritmo, que nem conseguia ver as suas próprias fotos, já prontas. Por vezes, não fazia a ideia de como encontrar determinado negativo. Não tinha um sistema de arquivo lá muito organizado. Dava como adquirido que tinha sempre fotografias perdidas no meio do seu espólio. Ou seja, assumia, que nunca iria ter tempo para ver algumas fotos que tinha tirado. Calcula-se que, tenha ficado por ver perto de meio milhão de fotos do total do seu arquivo que são cinco milhões. A média de fotografias que ele tirou por dia, ao longo de 36 anos de fotografia dá 445 fotografias por dias, ou 12 rolos por dia. Uma loucura. Conselho, fotografe muito, mas não fotografe tanto que não consiga ver as suas próprias fotos.

2º Use sempre o visor. Esta para mim é difícil de seguir, porque disparo muitas vezes sem usar o visor, mas procuro fazê-lo sempre que posso, e que me lembro dos conselhos dele. Ele desaconselhava que se fotografasse com a câmera apoiado no quadril, ou noutro ponto do corpo. Como é lógico, dizia que se perdia o enquadramento. Mesmo que fosse por breves instantes, ele olhava sempre através do visor. É evidente que se podem fazer boas fotos sem olhar pelo visor, mas perde-se o controle na composição. Winogrand dizia que só fotografava sem olhar pelo visor quando, tinha que levantar a câmera acima da cabeça para fotografar alguma coisa por cima de uma barreira física, que poderia ser de gente, ou outra coisa qualquer. Se a sua câmera tem visor, procure usá-lo sempre que puder, é para isso que ele lá está.

backup-4002© Fernando Kaskais

3º No Crop.Ou seja, não cortar o original, manter a imagem na íntegra. Esta ideia também era defendida por Cartier Bresson. Pois bem, aqui, desaprendi,  permitam-me discordar da opinião dos mestres, que é apenas isso, uma opinião, ou opção, que se tornou num dogma. Aqui aprendi a fazer o oposto, ou aquilo que me dá na gana. Eles argumentam que, se apenas uma parte da foto é que funciona, então isso não é o suficiente, para a foto ser considerada boa. Eu penso que uma foto pode conter várias fotos, assim como um quadro de Hieronymus Bosch pode conter várias cenas, aparentemente separadas. Uma foto aparentemente má, ou desinteressante, pode conter uma imagem surpreendente. Já descobri boas fotos, dentro de fotos sofríveis. Sou eu, enquanto fotógrafo que decido aquilo que quero mostrar, e não tenho que ser policia de mim mesmo, e impedir-me de redimensionar a foto, ou deixar de fora algo que está a mais. Isto é diferente, de usar o photoshop para acrescentar ou tirar algo na foto, e manipular completamente a foto. Eu falo simplesmente de ajustar o enquadramento. Não vejo porque é que tenho que olhar para o negativo como algo intocável. Tudo pode ser reinterpretado, uma página pode ser reescrita, uma pintura pode ser corrigida, uma música pode ser melhorada, porque é que uma foto não pode ser mexida?

4º Afaste-se emocionalmente das suas fotografias. Winogrand por norma não revelava logo um filme depois de o ter acabado. Ele esperava deliberadamente um ou dois anos. Porquê? Porque assim conseguia um distanciamento emocional que, lhe permitia olhar a para as suas fotos de uma forma mais crítica. Separar temporalmente a edição, da tomada da imagem, é uma boa ideia. Quantas vezes um fotógrafo não faz uma foto que lhe parece excelente, vai a correr para casa, edita a foto, e coloca na internet. Passado uns dias, repara que ninguém lhe gaba, ou comenta a fotografia, e ele próprio olhando para a mesma fotografia de uma forma mais desapaixonada, também chega á conclusão que a foto não era tão “excelente” como isso, e que tinha várias falhas de composição e de timing. Mesmo na era do digital, podemos aprender com Winogrand, deixe as suas fotos marinar como um bom bife, ou ganhar corpo como um bom vinho tinto. Não digo para esperar um ou dois anos, até olhar para as fotografias, mas umas semanas vai ajudar a esquecer as fotografias que tirou, e a olhar para elas de uma forma mais objectiva quando as editar.

5º Não coloque rótulos a si próprio. Winogrand odiava o termo “fotógrafo de rua”. Ele designava-se a si mesmo como um fotógrafo, nada mais. Isso pode funcionar como uma armadilha, condicionando o fotógrafo a um determinado tipo de fotografia. Mesmo Henri Cartier-Bresson que era, sem dúvida, o padrinho da “fotografia de rua”, também nunca se referiu a si mesmo como um fotógrafo de rua. Via-se mais como um foto-jornalista. É evidente que isto não é uma regra que tenha de ser seguida á risca, cada um pode designar-se como quiser, fotógrafo de paisagem, desportivo, de guerra, de casamentos e baptizados, de passarinhos, etc. Essencialmente somos fotógrafos, e depois vem o resto. Eu por exemplo gosto do minimalismo, e da conceptualização. Mas não sei se sou um fotógrafo minimalista.

© Fernando Kaskais
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