O que aprendi com Walker Evans

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© Fernando Kaskais

O que aprendi com Walker Evans

Walker Evans é um fotógrafo incontornável para quem aprecia fotografia. Ficou conhecido por fotografar a Grande Depressão Americana. Uma das suas afirmações mais famosas é a de que “a câmera não importa”. Usou várias e mais no fim da vida fotografava com uma Polaroid SX-90. Entre as várias ideias que Evans nos deixou, há algumas que me parecem mais importantes.

1º Ganhar a vida com um trabalho comum. Como muitos artistas, e os fotógrafos não são excepção, Evans lutava para pagar as contas ao fim do mês. Para isso, completava a sua paixão pela fotografia com um trabalho comum, que segundo ele lhe servia para pagar o quarto e a comida. Como era bastante ascético,  Evans não comia nem dormia muito. Ao contrário de muitos artistas daquela época, Evans não levava uma vida boémia. A ideia é que, independentemente da sua profissão, se a paixão de um indivíduo é a fotografia, então não importa em que é que ele tem que trabalhar para pagar as contas. Desde que consiga o máximo de tempo possível para fotografar. Até certo ponto, é bom que ele não ganhe a vida como fotógrafo, pois assim evita que a fotografia profissional corrompa a sua visão pessoal da fotografia.   

2º Dê a si mesmo uma educação visual. Uma das grandes mais valias da fotografia é que, é uma forma de arte extremamente democrata. Qualquer pessoa pode tirar fotografias, um idoso meio cego,  uma criança de seis anos, até um macaco, ou mesmo um cão. Basta ter uma caixa mágica e carregar num botão, e voilá, cria-se uma imagem. No entanto, paradoxalmente, essa também é a grande desvantagem da fotografia. Hoje em dia, é relativamente fácil para qualquer pessoa fazer uma imagem tecnicamente perfeita. Com a tecnologia existente, e a sofisticação das câmeras (e agora também dos telemóveis), alguém sem conhecimento específico, ou treino de qualquer espécie, consegue fazer uma imagem “tecnicamente perfeita”. A evolução da tecnologia, a internet, e as redes sociais, tem funcionado como um grande regulador, ou nivelador da divulgação da  imagem. Mas simultaneamente, tem empobrecido a educação visual que os fotógrafos recebem. Perto de 99% das fotografias que vão parar á internet são lixo.Então, como fazer para melhorar a nossa educação visual? É simples, olhar para trás, não,  não é olhar para trás das costas, é olhar para trás no tempo. A fotografia como forma de arte tem pouco mais de 100 anos, por isso o que temos a fazer é olhar para artes com milhares de anos, como a pintura, a escultura, a arquitectura, o desenho. Uma boa opção é estudar os pintores clássicos do Renascimento, e ver como é que eles pintaram seus temas, a posição dos modelos e a composição do quadro. Ver como a luz atinge a imagem. Se vem de cima ou de trás. Quantos elementos compõem a  cena. O que faz com que a imagem seja equilibrada? Como é que eles usam a cor para adicionar o drama ou chamar a atenção? Depois de estudar os pintores, porque não estudar os grandes fotógrafos? Adquirir uns livros de fotografia, estudar as composições e tentar definir as emoções que estas provocam.  Ser curioso, tentar perceber o que levou o fotógrafo a fazer aquela imagem específica ( e não outra), como é que ele fez para a foto ficar assim? Ao praticar e estudar tudo isto, a pessoa acaba por se inspirar para fazer aquilo que realmente gosta, fotografia.  

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© Fernando Kaskais

3º Vá contra o estilo do momento. Como praticamente todas as formas de arte, a fotografia tem certas modas, alguns estilos contemporâneos e algumas fases. Evans foi classificado como um visionário que abriu novos caminhos, e que inovou. Ora bem, ele foi capaz de fazer isso tudo, não porque seguiu as convenções daquela época, mas porque se rebelou contra elas e seguiu o seu próprio caminho. O mesmo se passa com qualquer um de nós, devemos ver o que os outros andam a fazer, mas não segui-los cegamente, por muito que apreciemos o trabalho deles. Até, se pudermos, o melhor é mesmo ver o que anda toda a gente a fazer, e fazer, (ou tentar),  precisamente o contrário.

4º Concentre-se em letras e palavras. Ou noutra coisa qualquer. Uma das coisas mais práticas que Evans nos ensina, é que nem sempre temos que fotografar pessoas. Palavras, letras, sinalização, outdoors, fazem parte da nossa existência diária. Evans interessava-se muito por  escrita, leitura e literatura, e isso parece ter tido uma enorme influência na sua fotografia, na maneira como ele foi atraído pelas palavras como símbolos e metáforas da vida. Evans entendeu que, sinais, outdoors e anúncios dizem muito sobre a sociedade contemporânea que nós valorizamos (ou o que os anunciantes estão a tentar vender-nos). Por isso, são uma parte importante do nosso tecido social. Assim, quando fotografar algum destes objectos, não os fotografe de “chapa”, ou seja, de frente e isolados. Tente incorporá-los com aquilo que está ao seu redor, seja os edifícios, as pessoas interagindo com eles, ou outra coisa qualquer. Procure criar uma justaposição ou uma conexão entre os sinais e as pessoas, atribuindo-lhes um significado mais profundo.

5º Componha instintivamente. Normalmente, quando nos iniciamos na fotografia, tentamos aprender as regras de composição, praticando, a fotografar objectos estáticos, como árvores, edifícios, flores ou paisagens. No entanto, compor quando se fotografa na rua é muito mais difícil. A composição e o enquadramento, são cruciais para a fotografia, mas estas qualidades só aparecem naturalmente ao longo do tempo. A melhor maneira de lidar com isto é, primeiro, fotografar instintivamente, depois, se houver tempo e hipótese, tentar recompor a cena disparando várias vezes. Mas o que é realmente importante lembrar é que, além da preocupação com a composição, devemos estar igualmente preocupados com o “motivo” da nossa fotografia. Essas são as duas forças motrizes de uma boa foto. O motivo e a composição.  Boas fotos

© Fernando Kaskais
© Fernando Kaskais
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