O que aprendi com Sebastião Salgado

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© Fernando Kaskais

O que aprendi com Sebastião Salgado

Sebastião Salgado é um dos fotógrafos mais fascinantes da actualidade. Ele começou a trabalhar como economista, e, de seguida, virou-se para a fotografia quando percebeu que a fotografia tinha mais poder do que os papéis para informar as pessoas sobre o mundo, e os seus problemas, inspirando os outros a fazer a diferença. Uma das coisas mais fascinantes, e ao mesmo tempo, ambivalentes, no trabalho de S. Salgado é o engajamento político, económico e social, que ele coloca nas suas fotografias. Digo ambivalente porque, embora seja importante informar as pessoas sobre condições de trabalho horríveis, a que alguns seres humanos estão sujeitos, e a importância que tem a preservação do planeta, creio que a fotografia está para lá da ideologia, embora, de alguma maneira, toda a fotografia seja ideológica. Ou seja, S. Salgado fotografa com toda a sua ideologia, e isso, de certo modo, condiciona a maneira como olhamos para as suas fotos. Mais do que o objecto estético, vemos o objecto ideológico, e o conceito ideológico é um conceito abstracto, que não tem necessariamente representação visual. Tirando isso, as fotos de S. Salgado são esteticamente fascinantes.

Ele também considera que o fotógrafo deve estudar muito mais coisas do que a fotografia. Salgado acha que o fotógrafo deve ter “um bom conhecimento da história, da geopolítica, da sociologia e da antropologia para compreender a sociedade de que faz parte.” E vai mais longe, pensa que a “falta deste conhecimento será muito mais limitadora do que qualquer habilidade técnica.” Esta é uma visão aparentemente aberta, mas no meu ponto de vista, acaba por ser redutora. Eu penso que o fotógrafo deve interessar-se por outras áreas, mas principalmente áreas ligadas á imagem, como a pintura, a escultura e a arquitectura, sem esquecer a música, que embora não esteja ligada á imagem, é fundamental para dar a noção de ritmo. A literatura também é importantíssima, mas  a sociologia, e a antropologia, nada tem a ver com a fotografia, podem ajudar a definir critérios políticos, e ideológicos, mas não ajudam a aprimorar o conceito estético.

É neste campo que eu acho que S. Salgado se limita a si mesmo, e nos limita a nós enquanto espectadores das suas fotografias. Porque, em última análise, o que Sebastião Salgado está a tentar fazer como fotógrafo, não é fazer fotografias esteticamente perfeitas, ou interessantes enquanto composições. Não, o que ele quer provocar são mudanças sociais. Ele quer que as pessoas questionem a natureza e o mundo. Ora, embora isso seja uma intenção louvável, e o fotógrafo, ou a fotografia, possam ser um agente de mudança, em última instância, não é esse o seu papel. Porque, como diz (e bem),Susan Sontag, embora a fotografia possa despertar consciências, nunca pode ser um conhecimento ético ou político. O conhecimento que as fotografias permitem adquirir é sempre uma espécie de sentimentalismo, cínico ou humanista. É um conhecimento de saldo: um simulacro de conhecimento, um simulacro de sabedoria; tal como o acto de fotografar é um simulacro de apropriação.  A necessidade de comprovar a realidade através das fotografias é uma forma de consumismo estético a que todos nos entregamos. Na verdade, uma pessoa pode fotografar o banal, o aborrecido, o quotidiano, e mesmo assim ser um excelente fotógrafo, e fazer óptimas  fotografias. É este lado demasiado ideológico, que me incomoda um bocado em S. Salgado. Fora isso, é um tremendo fotógrafo. Apesar de tudo,  há algumas ideias interessantes a reter do trabalho de S. Salgado.

1º Saia de casa. Esta parece mais do que lógica, mas às vezes as pessoas não pensam bem assim. Um tipo pode ser um grande escritor sem pôr os pés fora de casa. Na verdade, não se pode ser um grande fotógrafo enfiado em casa. A fotografia é um “desporto” outdoor, e quanto mais se fotografa, melhor se fotografa. Saia de casa, viaje o mais que puder e tente conhecer sítios diferentes sempre que puder e não se esqueça de levar a câmera consigo. Como é evidente, nem todos nos podemos dar ao luxo de viajar tanto como Salgado viaja, já que ele praticamente conhece o mundo inteiro, mas dentro das nossas limitações, podemos introduzir alguma variedade nas nossas rotinas diárias. Mudar o percurso para o trabalho, ou mudar os horários, ou experimentar fazer passeios diferentes dos que costumamos fazer, enfim, variar os estímulos visuais a que estamos habituados.

2º Seja criterioso. Na vez de gastar dinheiro em mais uma câmera nova, mais uma lente, mais um programa novo, mais um computador, ou em mais dispositivos inteligentes, em vez disso, tente guardar esse dinheiro para viajar. São as experiências que trazem “felicidade”, não são os objectos materiais. De que adianta ter uma câmera sofisticadissima se não vamos a lado nenhum com ela?

backup-2663© Fernando Kaskais

3º Defina projectos. Tente definir um projecto para a sua fotografia. Isso pode ajudar a estimular a criatividade, porque na verdade fazer fotos de um modo aleatório, e sem objectivo, pode levá-lo a um beco sem saída, e desmotivá-lo para a prática da fotografia. Por exemplo S. Salgado está interessado em construir histórias e narrativas de carácter social, e não imagens simples e isoladas. S. Salgado já foi comparado a Henri C. Bresson, eis a diferença entre os dois segundo as suas próprias palavras:- “É uma grande honra para mim ser comparado a Henri Cartier-Bresson, mas eu acredito que há uma diferença muito grande na forma como nos colocamos dentro das histórias que fotografamos. Ele esforçou-se sempre para captar o “momento decisivo” como sendo o mais importante. Eu trabalho sempre para um grupo de imagens, para contar uma história . Se você perguntar qual a imagem de uma história que eu mais gosto, é impossível para mim decidir. Eu não trabalho para uma imagem individual . “ No final, o que interessa é a quantidade, dedicação e tempo que se disponibiliza para um determinado projeto. Todos nós temos diferentes objetivos, ambições e esperanças para a nossa fotografia.

4º Relacione-se com os seus temas. Cada fotografia que um fotógrafo tira, acaba por ser um um auto-retrato. Acaba-se a fotografar os outros, da maneira como gostaríamos de ser fotografados. As fotos acabam por mostrar o relacionamento que o fotógrafo tem com aquilo que fotografa. Se fotografar à distância, aquilo que fotografou vai parecer distante e frio. Se chegar perto dos seus temas (pessoas), e interagir com eles, eles vão-se sentir emocionalmente mais perto e conectados. Por vezes, enquanto fotógrafos, colocamos muito ênfase sobre nós mesmos. Pensamos que somos a estrela da companhia, o actor principal, e os outros são personagens secundárias, doces e passivas. Nada mais errado.

5º Fotografe até cair (morrer). Repare no caso de Sebastião Salgado que tem actualmente 72 anos de idade, e não mostra sinais de desistir da fotografia. Ele compartilha com os seus admiradores a ideia de como a “velhice” não parou sua paixão pela fotografia: “Quando comecei O Genesis eu tinha 59, e pensei que era um homem velho”, diz ele. “Mas agora eu tenho 70 e me sinto bem e estou pronto para começar novamente. A vida é uma bicicleta: você deve manter-se equilibrado e ir em frente, e pedalar até cair. ” Há fotógrafos que lamentam não se terem iniciado na fotografia mais cedo, e outros que acham que deveriam ter fotografado mais quando eram jovens, na verdade, ser “velho” é mais um estado de espírito e mais uma atitude do que uma idade objectiva. A minha perspectiva é que, não importa se uma pessoa é um fotógrafo reputado ou não, seja, ou não seja, nunca deve parar de fazer aquilo que ama. Nunca deve cair na complacência, e deixar que o ego lhe suba á cabeça. Não deve pensar que é importante, nem tão pouco, que é um falhado, pois não é ele que importa, o que importa, são as fotos que ele deixa ao mundo. Nenhum de nós sabe quanto tempo mais é que vai viver, a vida é curta e incerta. Então não perca tempo, vá lá para fora e fotografe, há tanta coisa neste mundo para fotografar que com certeza que vai descobrir algo que lhe interesse. Boas fotos.

© Fernando Kaskais
© Fernando Kaskais

 

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