O que aprendi com Diane Arbus.

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© Fernando Kaskais

O que aprendi com Diane Arbus.

Diane Arbus, a fotógrafa anti-humanista. Ao contrário de Sebastião Salgado, por exemplo, Arbus elimina a política, e a ideologia do seu trabalho, as suas fotografias sugerem um mundo em que todos são estranhos, irremediavelmente sós, imobilizados em relações e identidades mecânicas e estropiadas. Arbus pulveriza a história, e a política através do horror. Um dos aspectos mais impressionantes do trabalho de Arbus, consiste no facto de ter-se empenhado num dos mais vigorosos empreendimentos da arte fotográfica, fotografando as vítimas e os desventurados, mas sem um propósito compassivo, que se espera que um projecto como este sirva. Mais uma vez, ao contrário de Sebastião Salgado, a sua obra mostra pessoas patéticas, dignas de lástima e repulsivas, mas não provoca quaisquer sentimentos de compaixão. As suas fotos mostram uma empatia isenta de sentimento para com as suas personagens. O que é impressionante na obra de Arbus, é que ela, simplesmente armada com uma câmera, consegue sugerir angústia, anomalia e doença mental em qualquer tema. Uma parte do mistério das fotos de Arbus, está no que sugerem sobre o modo como as pessoas se sentiram depois de serem fotografadas. Compreenderão como são grotescas? Aparentemente não. O tema recorrente da obra de Arbus é aquilo a que podemos chamar de “a consciência infeliz”. As suas fotos já eram famosas antes de ela se ter suicidado em 1971, mas o facto de se ter suicidado parece garantir que a sua obra era sincera e não “voyeurística”, compassiva e não indiferente. O suicídio sugere que Arbus travou uma espécie de combate mortal, tendo ultrapassado certos limites, caiu uma cilada psíquica, vítima da sua própria curiosidade e sinceridade. Eis algumas coisas que podemos aprender com ela.

1. Vá para lugares onde nunca esteve. Um traço distintivo de um fotógrafo, é a sua curiosidade. Fotografar na rua dá-nos uma desculpa para irmos a lugares que geralmente não vamos. Sempre que pudermos devemos explorar caminhos novos, tanto físicos, como intelectuais. estar de mente aberta para os assuntos que possam aparecer e fotografá-los “sem dó ou piedade.”

2. A câmera é uma licença para entrar na vida dos outros. Ao fotografar na rua, podemos sentir-nos tímidos para abordar estranhos e pedir para os fotografar. No entanto, podemos considerar que seria muito mais estranho, abordar alguém desconhecido, sem ter uma câmera na mão e uma razão para falar com eles. Ter a câmera é uma licença para entrar na vida dos outros. Arbus dizia que, sem a câmera seria muito estranho abordar alguém, e dizer-lhe que queria ir a sua casa e saber a história da sua vida. Arbus ficou com a ideia durante o seu trabalho que, as pessoas eram bastante humildes e que queriam algum tipo de atenção. No fundo, quando explicamos a uma pessoa que a achamos interessante para fotografar, normalmente a pessoa tende a reagir bem.

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© Fernando Kaskais

3º Perceber que nunca poderemos entender o mundo. É fácil ver o mundo pela perspectiva do fotógrafo, mas isso não significa que o compreendamos, ou que compreendamos sequer as pessoas que fotografamos. Arbus explica que, embora possamos ter as melhores intenções, em conhecer melhor os nossos temas, as nossas fotografias nem sempre mostram o que pretendemos. Podemos ter uma certa intenção ao fotografar, mas o resultado pode ser totalmente diferente. É impossível entrar na mente de outra pessoa, e as aparências iludem. Na verdade, nenhuma fotografia é verdadeiramente objectiva, e as nossas fotografias, são mais um reflexo de nós mesmos do que do assunto que fotografamos.

4º Obter inspiração na leitura. Arbus confessou que muita da sua inspiração vinha da leitura. Por exemplo, depois de ler um conto de Kafka sobre um cão, ela encontrou um na vida real que a inspirou para uma fotografia. Embora a fotografia não fosse nada de especial, para ela era um exemplo de como um factor externo á fotografia, era capaz de inspirá-la nessa arte. As outras artes, a literatura, a pintura a escultura, a música podem servir de inspiração para a fotografia. A criatividade é um processo estranho e pode ser despoletada por diversos factores.

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© Fernando Kaskais

5º Não ser juiz em causa própria. Em geral, os fotógrafos (eu incluído) são péssimos editores do seu próprio trabalho. Ou seja, quase sempre ficam emocionalmente ligados às suas imagens, e muitas vezes consideram fotografias banais, ou mesmo más, como boas fotografias. O oposto também acontece, por vezes, ignoram as suas melhores fotos não percebendo até que ponto elas são interessantes. As nossas primeiras impressões nem sempre são as mais correctas. Quem quiser publicar fotografias, ou editar um livro de fotografias, o melhor que tem a fazer é pedir uma segunda opinião sobre as suas fotografias. Hoje em dia, com a proliferação de blogues, e sites sobre fotografia, é fácil colocar fotos online e pedir às pessoas para as criticarem. É simples e eficaz, e fica-se com uma ideia mais correcta sobre a maneira como as outras pessoas vem determinada foto. Boas fotos.

© Fernando Kaskais
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