O que aprendi com Sergio Larraín

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© Fernando Kaskais

O que aprendi com Sergio Larraín

Sergio Larraín é uma figura da história da fotografia que se mantém relativamente desconhecido do grande público, e até de alguns fotógrafos. Nasceu em 1931 em Santiago do Chile, o pai era arquitecto. Com 18 anos, foi para os EUA e estudou silvicultura na Universidade Berkeley da Califórnia, antes de se transferir para Ann Arbor, Michigan, em 1954. Ele também viajou pela Europa e Médio Oriente , tendo uma câmera como companhia. Sua maior inspiração foi em Florença, de um fotógrafo chamado Cavalli. Quando voltou para casa, começou a trabalhar como freelancer para a revista brasileira O Cruzeiro com uma série de histórias sobre crianças de rua que viviam nas margens do Rio Mapuche. O Museu de Arte Moderna de Nova York adquiriu duas imagens para a sua coleção em 1956. A sua vida tem um lado misterioso, ele fotografou por mais de uma década, e então decidiu seguir um caminho mais “místico” na vida, concentrando-se em yoga, meditação e isolou-se da sociedade. O que é mais inspirador nas fotos de Sérgio é o seu sentido de graça, e a poesia que ele consegue imprimir às suas imagens. Ele dizia sobre o período áureo da sua fotografia que:- “Milagres começaram a acontecer, e a minha fotografia tornou-se mágica.” Com magia, ou sem ela, a verdade é que Sergio Larraín se tornou um fotógrafo conceptual de um grande misticismo. Vale a pena meditar em algumas lições deste fotógrafo originalíssimo.

1º Remover o véu da ilusão da realidade. Dizia Larraín que : – “A fotografia é uma caminhada sozinho no universo … O mundo convencional vela a sua visão, para a fotografia, e você tem que encontrar uma maneira de remover o véu.” Esta é uma visão profunda e filosófica de Sergio Larrain. Eu interesso-me por misticismo há muitos anos, e por acaso (ou talvez não) sempre pensei que, a fotografia é uma ferramenta que serve para ganharmos uma compreensão mais profunda da realidade. Também sinto que a fotografia anda á volta da auto-expressão e da auto-descoberta. Quanto mais fotos faço, mais aprendo sobre minha própria personalidade. Por exemplo, eu descobri que estava interessado em fotografia minimalista, e conceptual, porque gosto (cada vez mais) da simplicidade, do conceito do vazio e da organização visual. A confusão, o barulho e o “excesso de informação”, é algo que me perturba, tanto na fotografia, como na vida real.

2º Livre-se das convenções. Este homem era um sábio, e eu não podia estar mais de acordo com a sua ideia que, era a seguinte: “Uma boa imagem é criada por um estado de graça. A graça se expressa quando é libertada das convenções, livre como uma criança na sua descoberta da realidade. O jogo é então, organizar o rectângulo. ” Na fotografia, uma das formas para se manter inspirado é abraçar “a mente de principiante “. Alguém se lembra de quando pegou numa câmera pela primeira vez? Como estava excitado? De como tudo era tão interessante de fotografar? Pois é, mas com o passar do tempo, ganhamos experiência nesta área e a nossa visão torna-se menos pura, menos curiosa e menos perspicaz. Acabamos por deixar a nossa “mente especialista” nublar a nossa visão, e nós acabamos enredados em convenções. Aprendemos as “regras” da fotografia e, as nossas habilidades criativas ficam diminuídas. Esta é uma das lições mais importante que Larraín nos deixou, deixe a fotografia ser uma viagem pessoal para si. Não precisa de ouvir nada do que as pessoas lhe dizem sobre fotografia. Não existem regras. Apenas escute a sua própria voz interior.

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© Fernando Kaskais

3º Não force as coisas, se puder, faça o que lhe apetece. Não precisamos de viajar para fazer fotografias interessantes. Podemos explorar a nossa vida quotidiana e tornar essa vida comum, interessante e emocionante. Independentemente de vivermos num subúrbio ou numa cidade chata, há sempre coisas interessantes para fotografarmos. Não é preciso pensar muito, basta sair e fazer fotos.

4º Isole-se criativamente. Como é que um indivíduo desenvolve a sua criatividade sem se deixar corromper pelo mundo que o rodeia? Larraín acreditava que os criativos tinham que se isolar e permanecerem fiéis a si mesmos. Larraín pensava que os artistas que permaneceram felizes e puros foram os que escaparam às convenções que levaram os outros a perderem o caminho. Isso, para ele significava acreditar em milagres e magia na fotografia, estar aberto à inspiração (a musa), e não tentar controlar o processo artístico.

5º Evite a fama. A fotografia é uma ferramenta para o auto-exame, e uma ferramenta para entender o mundo ao nosso redor. A fotografia ajuda-me a ter uma perspectiva mais filosófica sobre a vida. Larraín pensava que um fotógrafo uma vez que alcance um certo nível de qualidade ou fama, e que continue em busca dessa mesma fama, de uma forma insaciável, acaba por se perder. O antídoto para isso é permanecer sempre humilde. Nunca perder o entusiasmo infantil pela fotografia. Usar os mídia sociais (e não ser usado por eles), como uma ferramenta para conectar-se com outras pessoas. Não deixar que isso arruíne a nossa sua vida. Sergio Larraín era um fotógrafo que conjugou os seus interesses na filosofia oriental, e na contemplação, com a fotografia. No auge de sua fama, ele retirou-se para uma pequena cabana, e seguiu um caminho genuíno traçado por si. Quanto mais fotografia faço, menos me preocupo em fazer melhores fotos. Menos me preocupo com os likes, com as críticas, sejam elas positivas, ou negativas. Estou mais interessado, em descobrir um propósito, ou um sentido mais profundo na minha fotografia. Boas fotos.

© Fernando Kaskais

© Fernando Kaskais

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