O que aprendi com Rene Burri

 

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© Fernando Kaskais

O que aprendi com Rene Burri

Rene Burri faleceu em Outubro de 2014, com 81 anos e com uma carreira incrível na fotografia, com imagens memoráveis de Picasso, Che e muitas outras que combinam perfeitamente a geometria e a história. Tinha umas ideias muito próprias e interessantes sobre a fotografia, eis algumas delas que nos podem ser úteis enquanto fotógrafos.

1º Fotografar coisas que mais ninguém pensa em fotografar. Numa época em que toda a gente tira fotografias de tudo e mais alguma coisa, graças aos telemóveis, ele alertava para a importância de  descobrir as coisas por nós mesmos, não ir atrás daquilo que toda a gente anda a fazer. Para vivermos as nossas experiências directamente e não através dos outros. A maior parte de nós, quando começa na fotografia vai para a rua fotografar os mesmos temas de sempre, artistas de rua, pessoas sem abrigo, pessoas caricatas, com cartazes, ou a fazer coisas esquisitas. Mas se alguém está interessado em fazer uma coisa diferente, tem de pensar de maneira diferente.

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© Fernando Kaskais

2º Mate o seu mentor. Por exemplo, Henri Cartier-Bresson foi o mentor de Rene Burri por muito tempo. Mas depois, a uma certa altura, Burri percebeu que é aconselhável “matar o seu mentor” , ou seja, deixar de seguir aquele exemplo cegamente. Continuar e descobrir o seu próprio caminho. Cultivar, e desenvolver, as suas próprias ideias e filosofia em relação á fotografia. Rene Burri dá como exemplo a história de como fotografou sua famosa imagem de “Homens num telhado”. Fotografou-a com uma teleobjectiva (na vez de fotografar com uma lente de 35mm-90mm como Henri Cartier-Bresson dizia a todos para fazer). Burri nunca disse a Bresson (que tinha achado a foto brilhante), que a tinha fotografado com uma lente de 180mm. Naquele momento, libertou-se do seu mentor. Conclusão, emite quem quiser, mas a uma determinada altura vai ter que começar a ter os seus próprios conceitos fotográficos. Quando chegar a essa altura, tem que romper com as “regras” e “directrizes” do seu mestre. Aí sim, vai poder abrir as suas asas e voar para onde quiser.

3º Provoque memórias e fantasias no seu espectador. Na fotografia há resumidamente, dois tipos de imagens, as “fotos abertas” e as “fotos fechadas”.   As fotografias mais interessantes, são aquelas que são envolventes e abertas. Fotografias que ajudam a conectar o espectador com as suas próprias imagens, e imaginação, de uma forma mais pessoal. O espectador usa a sua própria história, e as suas memórias aplicadas ao que está vendo.  As fotografias mais chatas tendem a ser aquelas em que olhamos para elas, vemos o que elas são, e seguimos em frente. Como as da National Geographic, ou as fotos de uma revista desportiva qualquer. São “fotos fechadas” em que o fotógrafo pura e simplesmente  mostra aquilo que viu e mais nada. Não há espaço para a imaginação e as imagens esquecem-se facilmente.  Não me interpretem mal, as fotos da NG, quase sempre são fotos tecnicamente perfeitas, e fantásticas, mas são unicamente aquilo que se vê, o que já não é pouco, mas não chega, ou pelo menos para mim, não chega. Eu quero que uma foto me intrigue, me deixe a pensar, além de, se possível, ser tecnicamente bem feita.

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  © Fernando Kaskais

4º Deixe-se influenciar pela literatura. Tornamo-nos melhores fotógrafos, se formos capazes de ir buscar inspiração a campos externos á fotografia. Burri confessou que a sua maior inspiração veio da literatura. Tanto Shakespeare, como as mais banais histórias de Cowboys que lia em miúdo, o inspiraram a ver as personagens como num filme. Talvez por isso mesmo, a maioria da imagens de René Burri sejam muito cinematográficas. Há personagens interessantes, e há espaços em branco suficientes para que o espectador os preencha com as suas próprias histórias. Como é evidente há mais campos fora da fotografia de que única, e exclusivamente, a literatura, podemos ganhar inspiração para a fotografia na música, cinema, dança, psicologia, arquitectura, ou qualquer outra coisa. De uma maneira um pouco bizarra, são os nossos interesses fora da fotografia, que ajudam a definir a nossa fotografia.

5º Seja curioso. E siga a sua curiosidade. Ela dá-lhe uma boa razão para explorar o meio que o rodeia. Talvez não haja melhor característica para um fotógrafo do que a curiosidade. E não são as câmeras, ou os equipamentos mais sofisticados que o vão ajudar a ser mais curioso. O fotógrafo deve olhar para a sua câmera como um meio que o vai ajudar a satisfazer a sua curiosidade. Usar a curiosidade e canalizá-la para a câmera. Comprar uma câmera nova não nos torna mais curiosos. O que fazer então para alimentar a curiosidade fotográfica? Duas coisas. Primeira, sempre que o trabalho de algum fotógrafo, nos desperte curiosidade, devemos tentar aprender mais sobre ele. Segunda,  levar sempre (que pudermos)  a câmera connosco, explorar os sítios onde nos encontramos, e  simplesmente fotografar aquilo que acharmos interessante. Boas fotos.  

© Fernando Kaskais

© Fernando Kaskais

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