O que aprendi com Richard Kalvar

 

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© Fernando Kaskais

O que aprendi com Richard Kalvar

Kalvar é um dos mestres contemporâneos da fotografia, nasceu em 1944 em Nova York, vive e trabalha em Paris, faz parte da Magnum e também faz uma fotos muito peculiares e com grande sentido de humor. As suas imagens resultam muito bem porque, frequentemente apresentam uma discrepância acentuada entre a banalidade de uma situação real, e um sentimento de estranheza que emerge de uma escolha particular de timing e enquadramento. O resultado, é um estado de tensão entre diferentes níveis de interpretação, acentuado por um toque de ironia. Há muito que aprender do trabalho de Kalvar, mas como isto não pretende ser um artigo exaustivo, nem uma tese sobre ele, ficam aqui apenas algumas ideias que podemos retirar do trabalho de Richard Kalvar.

1ª – As boas fotos só acontecem de vez em quando. Uma das maiores frustrações na fotografia é a quantidade de más fotos que acumulamos. Mas isso é normal, as boas fotos acontecem muito raramente. Pessoalmente, tenho a teoria dos 10%, ou seja, se em em 100 fotos fizer 10 que se aproveitem, e dessas 10, uma for muito boa, já me dou por satisfeito. Há quem tenha outro tipo de percentagens, agora o que não há de certeza, é quem faça 100%. Nem o Cartier Bresson. Kalvar por exemplo, ao fim de quarenta anos de trabalho, diz que “apenas” possui 80, ou 90 fotografias realmente boas. Isto dá 2 ou 3 boas fotos por ano, o que para ele é uma boa percentagem. Quando fotografamos na rua, tudo é imprevisível, não temos controle, o máximo que podemos fazer é tentar estar no local certo, e disparar no momento exacto. Por isso, o fotógrafo comum deve ter consciência que não vai fazer uma obra prima de cada vez que sai para a rua, com a câmera na mão. Se fizer duas excelentes fotografias num ano, já é muito bom.

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© Fernando Kaskais

2ª – Caminhe muito Uma das qualidades mais importantes de um fotógrafo que fotografe na rua é ter boas pernas. Kalvar diz que anda imenso, está sempre atento, e sente-se atraído por conversas na rua. Por vezes das conversas das pessoas não surge nada, noutras vezes, acontecem coisas interessantes. Quem se der ao trabalho de ver algumas fotos de Kalvar percebe imediatamente este conceito. Esta é uma boa ideia fácil de seguir, andar muito, e mantermos-nos atentos á interacção das pessoas entre si. Conversar, e interagir com as pessoas, ou não, se formos tímidos, não importa nada o tipo de câmera que temos, o que importa são os olhos com que olhamos o mundo.

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© Fernando Kaskais

3ª – Não explique as suas fotos. Apesar das imagens de Richard Kalvar terem um grande mistério ele não gosta de explicar o backstory das suas fotos, porque percebe que mata o mistério das fotos. E se ele acaba com o mistério, só sobra a realidade monótona. Ele quer que os espectadores cheguem às suas próprias interpretações. Se há um mistério, o espectador deve tentar desvendá-lo por si, subjectivamente, através da inteligência, imaginação e associação. Pessoalmente, escolho um título, uma legenda, ou uma citação, e muito raramente coloco a localização e a data. Isso já fornece um contexto suficiente para a cena, mas também deixa a imagem bastante aberta á imaginação do espectador. Para mim, as fotos mais interessantes são aquelas que tendem a ter mistério, na fotografia, não preciso, nem sou obrigado a dizer “verdades”. Todas as fotos são uma fabricação da maneira como vemos a realidade. Então, em certo sentido, elas são todas “mentiras”.

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© Fernando Kaskais

4ª – Funciona, ou não funciona. Uma das coisas mais importantes na fotografia, é ser brutalmente honesto quando se trata de edição. Isso significa, ser muito selectivo com as nossas melhores fotos. Kalvar tem uma máxima, funciona ou não funciona, por vezes pensamos que fizemos uma grande foto, mas quando a editamos percebemos que não é verdade, ou disparamos cedo demais, ou tarde demais, ou ficou tremida. No entanto, Kalvar tem a ideia que eu compartilho totalmente de que, podemos redescobrir uma boa foto “dentro” de uma foto banal. Se não consegue ser completamente honesto com as sua próprias fotos, peça a outro fotógrafo em quem confie, para o ajudar a escolher as suas fotos, peça-lhe para ser totalmente honesto.

dsc_0080© Fernando Kaskais

5ª – Brincar com a realidade. Embora Richard Kalvar faça parte de Magnum, o seu trabalho não é o documentário sério. Ele prefere misturar mistério e realidade nas suas fotos. Ele diz, e bem que: “O que sempre me interessou na fotografia é a maneira como podemos brincar com a realidade. A fotografia é baseada na realidade, parece realidade, mas não é realidade. É uma imagem de algo, mas não é a coisa em si. É diferente da realidade, não se move no espaço, não tem nenhum som, mas lembra-nos da realidade, tanto assim é que acreditamos que é realidade. Ele também é da opinião que “O preto e branco está um passo mais além da realidade. A cor, para mim, é mais real, mas menos interessante”. Uma das coisas mais interessantes no trabalho de Kalvar é o quão misterioso e estranho ele é. O seu trabalho não procura contar a história completa, trata antes de sugeri-la. Assim uma das ideias bases a reter do trabalho de Kalvar é a de que, se alguém quiser criar fotos mais interessantes, deve  procurar criar mais mistério. Não fotografar tudo o que tem pela frente. Decidir o que incluir e o que excluir. Criar abstracção na cena fotografada. Fazer o espectador pensar muito ao olhar para as imagens, e não lhe dar a história completa. Boas fotos.

© Fernando Kaskais

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