O que aprendi com Weegee

 

© Fernando Kaskais

O que aprendi com Weegee

Weegee, ou Arthur Fellig,  é certamente um dos mais infames fotógrafos da história. Embora ele nunca se considerasse um “street photographer”, a sua obsessão com a captura de pessoas era incomparável. Sem nenhuma preparação académica formal, ele cobriu alguns dos assassinatos mais horríveis que aconteceram na Nova York dos anos 30 aos anos 40. Armado com um rádio portátil de ondas curtas da polícia, ele estava sempre à espera de novas histórias para cobrir, com uma câmara escura completa no porta bagagens do seu carro. Isso permitia-lhe fazer chegar as suas fotos aos jornais o mais rápido possível. Usava uma câmera de imprensa de formato grande 4×5 Speed Graphic e flash, o que adiciona ainda mais drama às suas fotos a preto e branco. Certamente Weegee teve uma forte influência para fotógrafos como Diane Arbus, William Klein e Bruce Gilden. A razão porque A. Fellig tinha esta alcunha de Weegee (que soava como Ouija, a placa com poderes psíquicos) é porque que as pessoas pensavam que ele chegava aos locais dos crimes, antes de estes acontecerem, por conseguinte tinha faculdades mediúnicas. Maus caracteres, ou poderes psíquicos à parte, há algumas ideias de Weegee que, podemos levar em conta enquanto fotógrafos.  

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1º Conseguir a foto. A profissão de Weegee era a de fotógrafo freelancer. Ele costumava dormir no parque, no carro ou em outros lugares, ouvir a rádio da polícia para descobrir assassinatos, incêndios ou outros eventos de interesse para fotografar. Isto permitia-lhe capturar as imagens antes de qualquer outro fotógrafo. Ele, depois, vendia as fotos aos jornais para ganhar a vida. Weegee enfatiza a importância de agir, e pensar rapidamente. Nas fotografias de notícias o fotógrafo tem que pensar rápido, ter confiança na sua técnica e autoconfiança. A fotografia de rua é muito semelhante. Tem que se pensar rápido, porque quando se vê uma pessoa interessante ou uma cena prestes a acontecer, de certeza que não teremos uma segunda chance para capturá-la. A autoconfiança também é de extrema importância , tanto em termos de se saber usar a câmera, como a de nos aproximar das pessoas. Portanto, a ideia prática é de estarmos sempre prontos com a nossa câmera, para fotografar não importa o quê. Weegee trabalhava com uma enorme 4 × 5 câmera de imprensa. É muito (mesmo muito), mais pesada do que uma moderna DSLR dos nossos dias. Devemos também, conhecer as nossas limitações pessoais e ter sempre a câmera pronta connosco.

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2º Criar as oportunidades e não esperar por elas. Para tirar as suas fotografias Weegee não esperava que as oportunidades viessem ter com ele. Em vez disso, ele criava as suas próprias oportunidades. Como um lobo solitário, estava sempre à espreita. Ele não esperou que lhe oferecessem um trabalho de fotógrafo, inventou um para si mesmo. É frequente queixarmos-nos de que o local onde vivemos não é muito interessante, e que não há muita fotografia para fazer nessas mesmas ruas. No entanto, uma coisa engraçada é que mesmo os fotógrafos que vivem em Los Angeles, Paris, Nova York, ou mesmo Tóquio, acabam por ficar entediados do local onde estão. A verdade é que realmente não importa onde vivemos, temos que criar as nossas próprias oportunidades para fotografar.

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3º Olhe para o lado oposto. Por exemplo, num festival, concerto ou outro qualquer acontecimento com espectadores e onde os fotógrafos estão a fotografar o óbvio, talvez seja mais interessante fotografar os espectadores, ou outra coisa em que mais ninguém repara. Por exemplo, em vez de apenas fotografar outro edifício em chamas, Weegee estava mais interessado nas pessoas afectadas, e assim fotografou as pessoas na vez do fogo. Afinal, os melhores fotógrafos são aqueles que são capazes de fotografar as coisas que são menos óbvias. Assim, em caso de dúvida, olhe para o outro lado, porque às vezes olhar para o outro lado pode ser mais interessante.

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4º Procurar assuntos com carácter. No caso de pessoas, Weegee estava obcecado com a procura de personagens fascinantes. Ele fotografou montes de gente, e sabia instintivamente quando alguém não era o suficientemente interessante. Por exemplo, os seus amigos costumavam dizer-lhe para fotografar bêbados desmaiados no chão, mas Weegee não o fazia, sabia que não eram interessantes para ele, as possíveis imagens não tinham carácter suficiente. Para ele até um bêbado deveria ser uma obra-prima! Weegee era um perfeccionista. Ele queria que as fotos que ele considerava interessantes, fossem mesmo interessantes não só para si, mas para o seu possível espectador. Portanto, mesmo agora, na era do digital, onde podemos tirar centenas de fotos num único dia, devemos reflectir um bocado antes de tirar uma foto, e pensar: isto é interessante? Vale a pena tirar uma foto de? Será que esta cena se parece com todas as outras cenas que eu vi, ou é inerente-mente diferente? Esta pessoa que eu quero fotografar tem personalidade e carácter no seu rosto? As suas roupas são interessantes? Estas são algumas perguntas que podemos colocar a nós mesmos antes de fotografar. Não vale a pena tirar fotos chatas e medíocres na rua. Devemos esforçar-nos para sermos mais selectivos na busca de personagens e cenas interessantes, e lutar pela perfeição.

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5º Conhecer bem o “nosso quintal”. Ou seja, conhecer bem o nosso bairro, ou a nossa cidade. Como mencionado anteriormente neste artigo, os fotógrafos tendem a queixar-se de que o local onde vivem, não é muito interessante para fazer boa fotografia. No entanto, acho que os projectos de fotografia mais interessantes realmente não dependem do sítio onde vivem os fotógrafos. Em vez disso, os projectos mais interessantes, acontecem, geralmente quando um fotógrafo começa a conhecer um lugar muito bem. Esse local pode ser o seu próprio bairro ou outro lugar qualquer. A razão pela qual as fotos de Weegee eram tão boas é que ele conhecia a cidade de Nova York como as palmas das suas mãos. Ele conhecia todas as esquinas, onde a acção estava, e onde coisas interessantes poderiam acontecer. Foi isto que lhe deu os seus “poderes quase sobrenaturais” em termos de “prever” onde coisas interessantes poderiam acontecer (mesmo antes de acontecerem). Na verdade, quando se trata de trabalhar num projecto de fotografia (ou qualquer outro assunto), quanto mais fundo se vai, melhor o projecto geralmente fica. Isto leva muito tempo e esforço. Por exemplo, Bruce Davidson, andou de Metro quase todos os dias durante 2 anos, para criar o seu monumental livro “Subway”. Outro exemplos, Josef Koudelka também levou 10 anos a viajar, e a viver com os ciganos para criar a sua obra-prima: “Ciganos”. Harvey Stein fotografou Coney Island por mais de 40 anos, para o seu incrível livro “Coney Island 40 anos”. Assim, (graças a Weegee, que apesar de não ter vivido uma vida muito saudável conseguiu despejar toda a sua energia, alma e paixão no seu trabalho de fotografia), ficamos a saber que realmente não importa onde se fotografa, mas sim como se fotografa. Na vez de procurarmos imagens únicas para colocarmos nas redes sociais, é “melhor” tentarmos conhecer muito bem um determinado lugar, e trabalhar em projectos, que nos permitem ultrapassar os clichês, e que entendamos melhor a “alma” daquilo que estamos a fotografar. Boas fotos.

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