O que aprendi com Leonardo da Vinci sobre Fotografia

© Fernando Kaskais

O que aprendi com Leonardo da Vinci sobre Fotografia

Leonardo foi o maior fotógrafo do Renascimento… estou a brincar, mas sem duvida que o seria se, na altura, já existisse a fotografia tal como a conhecemos hoje.  Uma das melhores prendas que a minha mulher me deu, foi o livro gigante – Obra Completa de Pintura e Desenho de Leonardo da Vinci, de Frank Zollner, editado pela Taschen. Sempre admirei Leonardo da Vinci, que para mim (gostos não se discutem), é o maior génio da história da humanidade. Leonardo não tinha educação formal, mas isso não o impediu de se tornar um dos artistas mais amados de sempre. Talvez, por ser um dos observadores mais argutos que alguma vez existiu neste planeta. Olhava á sua volta, tomava notas e prosseguia com a sua curiosidade. A sua atitude perante o mundo era a de uma criança curiosa, sempre disposta a aprender. O homem era um génio inacreditável, foi um dos primeiros a “misturar” matemática, ciência e arte. Muitos dos seus desenhos anatómicos do corpo humano foram usados ​​nas faculdades de medicina durante centenas de anos. Chegou também a usar uma “câmera obscura” para estudar a perspectiva. Se hoje fosse vivo, com certeza que seria um fotógrafo do outro mundo. Para mim, é o meu mestre de eleição, e nunca me canso de estudar a sua arte e a sua filosofia, na esperança que sobre alguma coisinha, que me ajude a melhorar a minha fotografia. Peço-lhe desculpa, a  ele (Leonardo), por manipular as suas imagens, tenho quase a certeza que ele não leva a mal, afinal é por uma boa causa.  Aprendi muito mais com ele, mas aqui ficam 10 lições que “ele me ensinou”.

 

© Fernando Kaskais

1. Pintura e Poesia. A pintura é poesia que é vista (antes de ser sentida). E a poesia é a pintura que é sentida. Como é óbvio, nós não podemos ver aquilo que está a ser descrito num poema, a não ser com os olhos da nossa mente. Naquela época e em termos práticos, a poesia era vista como a arte final, a arte das artes. Os pintores sentiam-se um pouco inseguros em relação aos poetas. Hoje em dia (ironicamente), os fotógrafos, também se sentem inseguros em relação aos pintores. Numa perspectiva mais moderna podemos intuir a seguinte analogia, A fotografia é poesia que é vista em vez de sentida, e a poesia é a fotografia que é sentida em vez de vista. Ou se quisermos, A fotografia é pintura pintada com uma câmera. Na verdade, a câmera é o nosso pincel. “Fotografia” significa pintura com luz (em grego / latim) . Foto (fotão, luz) e graphy (gráfico, desenho, esboço, pintura, etc). Em última análise, não importa qual a ferramenta que se usa. Contanto que possamos criar arte e imagens que nos transmitam sentimentos, ou emoções fortes. Na prática, acabo por encontrar a maior inspiração na minha fotografia através da poesia, da pintura e de outras formas de arte. Também encontro inspiração na música, escultura e cinema. Tudo isto pode ajudar-me a inserir sentimentos nas minhas fotos, porque uma fotografia sem emoção é uma fotografia morta. Infelizmente nem sempre o consigo, mas que tento, lá isso tento.

2. Sair e cumprir o destino. Como é evidente, nenhum de nós pode almejar realizar alguma coisa na vida se não fizer nada por isso. Toda a matéria é inerte, a menos que surja uma força externa que aja sobre ela. Se queremos explorar o nosso potencial, e cumprir o nosso destino precisamos de sair e fazer coisas. Será muito difícil alguém ser um fotógrafo minimamente interessante, se permanecer fechado em casa. Não importa a nossa situação na vida, podemos sempre aproveitar o melhor dessas circunstâncias pessoais. Quer ser um grande fotógrafo, mas tem uma uma vida doméstica muito preenchida? Tire fotos dos seus filhos, da sua parceira(o) dos cães, dos gatos de si mesmo. Vive uma cidade chata ou sem interesse? Encontre inspiração na internet. Nos mestres do passado. A criatividade não se limita apenas à fotografia, podemos ser criativos escrevendo, cantando, dançando, pintando, esboçando, ou através da arte da conversação (algo que podemos aprender com os italianos). Saia, e não se importe de fazer montes de fotografia imprestável, é sempre uma maneira de aprender.

© Fernando Kaskais

 

3. Passe mais tempo sozinho. Não estou a sugerir que se divorcie, ou vá viver para o monte. Pessoalmente, desenvolvo melhor a minha criatividade quando estou sozinho. Por exemplo, coisa que nunca fui capaz de fazer foi fotografar em grupo. A ideia de safaris fotográficos, ou workshops de fotografia, é para mim algo bizarro. Nem sequer tento. No entanto, admito que até possa ser inspirador para algumas pessoas. Ter alguém a fotografar ao meu lado (basta uma pessoa), já me incomoda, não me consigo concentrar. Estou a escrever este artigo fechado no escritório, não o conseguiria fazer num café ou numa biblioteca. Tenho como princípio de que se quero realmente desenvolver algum trabalho criativo, tenho de pertencer a mim mesmo, não dá para dividir o foco de atenção.

4. Nunca parar de aprender. Há um certo tipo de pessoas que me intriga bastante, são aquelas que não lêem, nunca. Tenho a ideia bizarra de que viver sem aprender é a mesma coisa do que estar morto. Precisamos continuar a aprender, permanentemente. É esse pequeno detalhe que nos ajuda a ter um certo gosto por viver, e acordar de manhã. Eu adoro ler, e aprender, pode não servir para mais nada, mas pelo menos serve para me deixar menos ansioso em relação á vida, e ao mundo. Nos dias de hoje é incrível aquilo que se pode aprender usando uma ferramenta como a internet. Já sabia muito coisa sobre o Da Vinci graças ao tal mega livro que a minha mulher me ofereceu, mas através do Virtual Museum Tour da Google Arts & Culture (passe a publicidade) fiquei a saber muito mais, sobre ele, e sobre uma série de outros artistas que aprecio muito. Inclusive descobri alguns que desconhecia de todo. Se não podemos estar a criar através da fotografia, podemos estar a aprender em qualquer outra situação, com qualquer outra ferramenta.

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5. Estudar ciência e arte. O nosso inestimável amigo Leonardo aconselha-nos a estudar arte e ciência, bem como a ciência da arte. Quais são os princípios matemáticos que fazem a grande arte? Estudar isto, ajuda e muito a estudar composição. Estudar diagonais, triângulos, ângulos, curvas e outros princípios da matemática para fazer boas composições. Quando ele nos aconselha a estudar a arte da ciência, quer dizer para nos interrogarmos, o que torna a ciência bonita? Quando olhamos para uma molécula ou um átomo, como vemos o universo nele? Ele sugere que devemos desenvolver os nossos sentidos (o nosso sentido de toque, cheiro, audição). Ele diz-nos especialmente para aprendermos a ver. Como fotógrafos, precisamos aprender a ver. Como podemos aprender a ver? Eu aprendo a ver não estando distraído. Aprendo a ver, até ficar entediado com o objecto da minha atenção. Aprendo a ver caminhando devagar, a olhar paras coisas com olhos de ver, olhar para as árvores e os prédios, e para a rua que percorro. Aprendo a ver ao olhar para os rostos de estranhos, tentando detectar emoções e estados de alma. Tudo está ligado, na arte, e na vida.

6. Seja ambicioso, mas não muito. Quero dizer, sonhe com o que quer vir a fazer, mas procure sonhar principalmente com aquilo que é capaz de fazer. Procure almejar fazer apenas aquilo que está dentro das suas capacidades. Por exemplo: não me adianta sonhar em ser fotógrafo da National Geographic, se sofrer de agorafobia, tiver medo de andar de avião, se tiver receio da natureza, ou não tiver jeito nenhum para fotografar essa mesma natureza. Não me adianta pensar em fotografar lindas modelos, se não tiver jeito nenhum para fotografia de estúdio, e for muito tímido socialmente. Eu queria ter um blogue, posso blogar, fiz um blogue. Felizmente não sou cego, tenho capacidade de ver, gosto de artes visuais, não sei pintar, portanto, faço fotografias, para á minha maneira dar sentido ao meu mundo. Mais vale ter poucas capacidades, e usá-las bem, ou o melhor possível, do que ter muitas, e não as usar de todo.

 

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7. A minha Filosofia é aprender a morrer, não a viver. Eu explico. Tão importante como saber viver, é saber morrer. De uma maneira subconsciente eu encaro cada dia, como se fosse o meu último. Sinto que tenho obrigação de deixar esta vida, estando o mais informado, ou mais culto que puder estar. È óbvio que não quero morrer já amanhã, mas se me lembrar que a morte pode estar prestes a bater-me no ombro, não vou perder o meu tempo a ver novelas, ou filmes parvos, nem a ouvir música horrorosa. Não vou desperdiçar o meu tempo com prazeres inúteis. Quero saber tudo aquilo que puder saber sobre fotografia, literatura, pintura e tudo o mais que me interessar. Vai servir-me para alguma coisa depois de morto? Não! Mas morro sem arrependimento algum.

8. Não perder a prática. Não perder a forma, física e mental. Manter a mente afiada como a espada de um  guerreiro. Para isso é preciso usá-la, e afiá-la constantemente. Não pode ficar romba, nem ganhar ferrugem. É preciso praticar regularmente. Eu, se passar alguns dias sem escrever, parece-me que as palavras já não fluem com a mesma facilidade. Parece-me que há mais resistência, mas às tantas, é só impressão minha. Se passar muito tempo sem fazer uma foto, parece-me que já não sei pegar na câmera, parece que fiquei desajeitado. Até me parece que não vejo tão bem. É uma boa ideia construir hábitos saudáveis, de leitura, escrita, fotografar, caminhar etc. E mantê-los.

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9. Simplifique. Não coloque muita gente na fotografia. Não sobrecarregue as fotos com muita informação. Sejam pessoas, ou objectos. Ao repararmos no trabalho de Leonardo vemos que ele não sobrecarrega os seus quadros com figuras, a não ser na medida do necessário. É muito contido. Eu gosto dessa ideia porque vem ao encontro da minha ideia de fotografia minimalista, e zen. Quanto mais simples for a fotografia, para mim melhor.  Como por exemplo, as fotos do posts anteriores  “Waves Observer”  e  “Lost in Photo”, neste mesmo blogue. O que não quer dizer que não possa uma vez por outra, fazer fotos com montes de informação a aparecer na imagem. Se isso der lugar a uma foto interessante, porque não?

10. Não se especialize. Há muitos anos atrás ouvi uma frase que nunca mais me saiu da cabeça – “A especialização é para os insectos”. Já não me lembro quem a disse, mas ideia ficou-me gravada. Nós, os modernos, ou melhor, os modernaços, achamos que a especialização é o segredo do sucesso. Leonardo fez o oposto, não se especializou, pelo contrário, generalizou-se. Estudou tudo. Botânica, escultura, arquitectura, o corpo humano, pintura, desenho, luz, matemática; O mundo inteiro era o seu quintal. Como fotógrafos, não devemos impor-nos limites. Podemos tirar fotos de qualquer coisa. Fazer arte de qualquer coisa. Sem limites. E como fotógrafos, não basta fazer fotos. Podemos fazer outras formas de arte. Quem tiver jeito para isso (eu não), pode fazer arte com a voz, com os movimentos do corpo, através de esboços, desenho, música, seja aquilo que for. Esta última ideia, da não especialização, é para mim uma ideia chave, do pensamento de Leonardo da Vinci.

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Conclusão. Se está a ler isto, e gosta de fotografia, e da arte em geral, não se especialize, procure universalizar a sua arte (fotografia) o mais que puder. Torne-se uma pessoa “renascentista”. Aprenda tudo. A fazer tudo. Não se limite. Estude ciência, arte, arquitectura, pintura, desenho, matemática, música, o corpo humano. Aquilo de que gostar, e puder.  Lembre-se que tudo está interligado. Nunca pare de aprender, seja curioso. Muito mais haveria (e há), a dizer sobre este homem genial, mas por agora fico-me por aqui. Boas fotos.

© Fernando Kaskais

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