O que aprendi com David Hockney sobre Fotografia

© Fernando Kaskais

O que aprendi com David Hockney sobre Fotografia 
Para alguns, David Hockney é o pintor britânico mais importante dos últimos 50 anos. Para outros será Francis Bacon, para outros, ainda, será Lucian Freud. Para mim essa classificação hierárquica não é importante, o importante é que, Hockney é um pintor inspirador para qualquer fotógrafo. É também um pintor que soube reinventar-se praticamente de dez em dez anos, além de desenvolver as possibilidades artísticas das novas técnicas de criação. Trabalho, muito trabalho, linha, cor e tempo, foram os ingredientes que fizeram o sucesso de Hockney. Além do talento é claro. Apesar de tudo, o próprio Hockney afirmava que as dificuldades de representar o mundo a duas dimensões são permanentes, os problemas pictóricos continuam. Ou seja, nunca os conseguiremos resolver. O mesmo é válido para a fotografia. Seja como for, para mim, há algumas coisas a aprender com Hockney, e não são poucas, ou coisas menores. Eis algumas delas.

 

1ª Versatilidade. Quando temos uma visão geral do trabalho de Hockney, a primeira impressão é a versatilidade, que chega a ser alucinante. Há uma orgia de cores, fruto de muita pesquisa e trabalho. No entanto, Hockney consegue ao mesmo tempo ser exuberante e económico. Isso, para mim, inspira a fotografia minimalista.

 

2ª Provocador. A provocação é um exercício de liberdade, e David Hockney sempre foi um provocador. Nunca ligou a modas (mas lançou várias). Pensava pela própria cabeça, e não pedia licença, nem a aprovação de ninguém, para pintar aquilo que queria pintar. Afirmava isso mesmo: – “Pinto aquilo de que gosto, quando gosto e onde gosto, com algumas jornadas nostálgicas ocasionais.”

© Fernando Kaskais

3º Metodologia. Ter uma metodologia de trabalho parece uma coisa básica, mas não é tão simples quanto isso. Para Hockney, era simples, ver, observar, pensar, experimentar. Não perdia uma oportunidade de frequentar museus e de visitar exposições. Esta metodologia serve que nem uma luva a qualquer fotógrafo, e a parte cultural também, sempre que pudermos devemos tentar ver e aprender com outros artistas e outros meios.

 

4ªInspiração. A transpiração sabemos de onde vem. A inspiração pode vir de qualquer lado. Nos anos 50, o expressionismo abstracto dominava a pintura americana. Hockney preocupado com a representação da figura humana, procurava outras ideias. Foi buscar a inspiração aos homúnculos infantis de Jean Dubuffet, e aos graffiti pornográficos dos urinóis e casas de banho públicas. A frase concreta e a alusão literária atravessam a obra gráfica de Hockney e são parte integrante da sua pintura do princípio dos anos 60.

© Fernando Kaskais

5ªPerspectiva. Na pintura, assim como na fotografia, é tudo uma questão de perspectiva. O grande problema está em traduzir a realidade numa superfície bidimensional. A Perspectiva é algo de linear? O olho não vê assim. A câmera não vê como o olho. Para Hockney, mais importante do que a terceira dimensão é a quarta, o tempo. Nessa altura, a fotografia tornara-se irrelevante, porque congela o tempo (a maldição do ‘instantâneo’). Hockney teria de revolucionar primeiro a fotografia para depois atacar a pintura e insuflar-lhe o tempo.

 

6ª Estilo. Enquanto toda a gente, fotógrafos ou pintores, procura um estilo próprio, Hockney percebeu então que não tinha de se agarrar a um estilo próprio, e que o estilo era apenas um elemento a ser adoptado ou descartado consoante a vontade do artista. Mais do que isso: vários estilos podiam coexistir na mesma pintura. Isso é válido para a fotografia, não quer dizer que seja algo de mau, um fotógrafo ter um estilo bem definido, e reconhecível, mas não tem que se agarrar a ele com unhas e dentes, e tornar-se inflexível perante tudo o resto.

© Fernando Kaskais

7º Títulos. Gosto de dar nomes às minhas fotografias, como é facilmente comprovável, e pelos vistos Hockney também gostava de baptizar as suas pinturas. Mas com uma intenção diferente. Os títulos eram propositadamente longos, por exemplo, Portrait of an Artist (Pool with Two Figures) 1972, para ocuparem mais espaço no catálogo e assim chamarem a atenção. Sabidão, mas resultou, as obras deram que falar.

 

8ª Inovador e Pioneiro. Pessoalmente, sou um bocado conservador no que diz respeito a alguns cânones da fotografia (por expo. – Não abdico de uma boa composição, de uma boa luz, etc.) mas estou sempre disponível para aprender, ou fazer algo de novo, desde que me pareça que é positivo para aquilo que pretendo. Com o tempo, Hockney afirmar-se-ia um pioneiro no uso da fotocópia e do fax para desenhar e, a partir de 2007, do Photoshop, o que lhe permitiu “desenhar numa impressora”. Mais recentemente tem recorrido ao iPhone, com uma aplicação chamada Brushes, e, numa escala diferente, ao iPad. As novas técnicas e suportes sempre o excitaram.

© Fernando Kaskais

9ª Inteligente e inventivo. Quando Hockney tinha um problema técnico (não de inspiração), não descansava enquanto não o resolvia, ou inventava algo que o resolvesse. Por exemplo; – Há anos que se interessava pela representação dos meios e objectos transparentes. A água, porém, trazia problemas formais novos, porque “pode ser tudo — pode ter qualquer cor, move-se, não há nenhuma descrição visual estabelecida”. Para resolver o assunto, uma vez mais, a inspiração veio-lhe das ‘pinturas spaghetti’ de Dubuffet. Resultado: as ‘paisagens aquáticas’ de Hockney, malhas de linhas quebradas, e curvas, enlaçadas como a tábua de um puzzle, contam-se entre as mais bem-sucedidas invenções formais do pintor. Isto serve para nós enquanto fotógrafos. Se queremos representar (fotografar) alguma coisa, e não sabemos como, há que por a cabecinha a funcionar, e não estar á espera que a inspiração, ou solução, caia do céu, aerotransportada por um drone da Amazon (passe a publicidade).

 

10ª Manipular o Tempo. Foram as experiências de espaço e de lugar, numa nova perspectiva cubista descoberta através da fotografia, a exploração das ilusões e artifícios do teatro, que lhe permitiram reinventar-se como pintor nas décadas de 80 e 90. Como fotógrafos, podemos beber o elixir da inspiração em qualquer fonte. Não é obrigatório que seja só na fonte da fotografia, ou da pintura. No “Parsifal”, de Richard Wagner, Gurnemanz explica ao protagonista que ali o “tempo transforma-se em espaço”. Cidadão do mundo, Hockney introduziu o tempo no espaço da arte, primeiro na fotografia e depois na pintura (e também com o vídeo). Sempre encarara a câmara, com a sua perspectiva de ponto único, como insuficiente. Para nós fotógrafos é a nossa ferramenta, para ele, é mais uma. Para ele, a máquina fotográfica é uma espécie de “ciclope paralisado a olhar para o mundo durante uma fracção de segundo”. Realidade, isto? Daqui até à construção de grelhas de polaróides (a que tipicamente chamou “desenhos com a câmara”) e de colagens fotográficas (onde a forma segue o conteúdo) foi um passo. As combinações de instantâneos permitiram-lhe mimetizar o tempo e simular movimento, isto é, imitar a “maneira como nós olhamos realmente para as coisas, chegar mais perto. Ou seja, usando vários meios conseguiu chegar ao fim que pretendia. Coitados de nós fotógrafos, que “só” temos a fotografia para nos expressarmos, e mesmo assim, muitas vezes, nem sequer sabemos como usá-la. Acresce ainda que, aquilo que o pintor tinha considerado “infotografável” passou a ser “pintável” (se é que estas palavra existem)! Foi o caso do Grand Canyon, um dos locais mais transcendentes do planeta, onde nos sentimos a caminho do céu; na mão de Hockney, o espaço estica para incluir o tempo, uma contradição relativista!

© Fernando Kaskais

Conclusão – Muito mais haveria ainda a dizer sobre Hockney, mas faço minhas, estas suas palavras: “O que me interessa são as imagens (pictures), o mundo visível e como o representar. A técnica usada para lá chegar é indiferente; o que conta é a intuição e o génio criativo do artista.” Amém, e boas fotos.

 

© Fernando Kaskais

© Fernando Kaskais

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: