Rainer Maria Rilke e a Relevância da Poesia na Fotografia

© Fernando Kaskais

Rainer Maria Rilke e a Relevância da Poesia na Fotografia

Se a fotografia tivesse só uma vertente técnica, éramos todos fotógrafos felizes. Mas não, ao lado (ou por cima) de todos os aspectos técnicos que acompanham a fotografia, existe a criatividade, que é uma área que nos obriga a usar todas as ferramentas que temos á mão, para fazermos a NOSSA fotografia, e conseguirmos compartilhar a nossa visão do mundo com os outros. Ás vezes, estamos tão obcecados com a técnica (e com o equipamento), que nos esquecemos que a criatividade não é um fluxo constante. É mais como um rio, uns dias corre forte e transborda, noutros, praticamente não há uma gota de água.
Em 1902, o austríaco Franz Xaver Kappus escreveu uma carta ao poeta Rainer Maria Rilke, na esperança de obter críticas sobre a sua própria poesia. Rilke recusou o pedido. O que se seguiu foi uma troca de cartas durante seis anos, cheias de insights sobre o processo criativo de Rilke. Cerca de vinte anos depois, e um par de anos após a morte de Rilke, Kappus percebeu como essas cartas poderiam servir de ajuda para outros criativos, e decidiu compilar dez das cartas que recebeu, e publicou-as como um livro intitulado Cartas Para um Jovem Poeta. Conheço o livro há uns tempos, mas não descansei enquanto não baixei uma cópia para o Ipad, sendo uma excelente ajuda para períodos de pouca inspiração criativa. O livro é uma excelente leitura para qualquer pessoa que trabalhe no campo criativo. É bom voltar ao livro de vez em quando, nem que seja apenas para ler uma única carta. O livro oferece muitos pontos de vista interessantes, e obriga-nos a pensar sobre o nosso próprio processo criativo. Eu tenho uma cópia digital, mas também aconselho a comprar uma em papel, pois é fácil de transportar, e serve para tomar notas.
Há oito citações no livro que me marcaram e inspiram, e que eu acho que são perfeitamente aplicáveis á poesia, e á fotografia. Resolvi torná-las o mais curtas possíveis e são as seguintes.

“Você pergunta-me se os seus poemas são bons. Envia-os para editores; compara-os com outros poemas; fica perturbado quando determinados editores rejeitam as suas tentativas… Ninguém pode aconselhá-lo, e ajudá-lo, ninguém…” O mesmo se passa na fotografia. É difícil não cair na armadilha da confirmação externa. Afinal, quando estamos a tirar fotos, a maior parte das vezes temos o desejo de compartilhá-las com os outros. Por mais difícil que possa parecer, às vezes é melhor, não confiar na aprovação externa, tanto online, como na vida real. Porquê? Porque a fotografia, (e na “street photography” em particular), é uma ferramenta para compartilhar a NOSSA visão sobre o mundo. O meu amigo(a) precisa que alguém aprove a sua opinião sobre as coisas, ou quer desafiar as outras pessoas, mostrando como vê e experimenta a vida? Se quiser comparar o seu trabalho, compare as suas fotos mais recentes com as que tirou há um ano atrás, ou mesmo há mais tempo. Dessa forma, pode ver o seu próprio progresso e mudanças de interesse. O objectivo deve ser cumprido fazendo aquilo que está fazendo, ou quer fazer, para não fazer o que pensa que os outros esperam de si. Quando se trata apenas de aconselhamento técnico e prático, creio que pode ser proveitoso para o nosso desenvolvimento, que outros nos possam iluminar, e ajudar a compreender. Mas quando se trata de encontrar o nosso próprio estilo, entender por que estamos a fazer o tipo de fotografias que fazemos, aí, estamos sozinhos e temos que aprender a confiar no nosso próprio julgamento.

© Fernando Kaskais

2ª – “Porque é que quer expulsar da sua vida a mais pequena intranquilidade, toda a miséria, alguma depressão, se afinal você não sabe que mudanças estas circunstâncias estão criando dentro de si?”. Todos nós passamos por períodos mais difíceis, e mais obscuros nas nossas vidas, e muitas vezes  isso não aumenta a nossa motivação para continuar a trabalhar na fotografia. Embora, possa parecer difícil, começar de novo, tente usar a “miséria” e a inquietação que o consomem, como uma ferramenta. A maneira como sentimos reflecte-se no nosso trabalho, e pode resultar num pensamento significativo que provoque boas imagens. Pegue na câmera novamente, e fotografe tudo aquilo que lhe parecer “miserável”, ou identificável com o seu estado de espírito.

© Fernando Kaskais

3ª – “As pessoas têm, com a ajuda de tantas convenções, e invenções, resolvido tudo da maneira mais fácil, usando o caminho mais fácil, do lado mais fácil do fácil. Mas é claro que devemos abraçar a luta. Todo o ser vivo está em conformidade com ela. Tudo na natureza cresce e luta à sua maneira, estabelecendo sua própria identidade, impondo-a a todo custo, contra toda resistência.” É seguro dizer que, somos todos culpados de desenvolver certos “truques”, que aplicamos para tornar mais fácil, a captura da imagem perfeita, tanto durante o disparo, como no pós-processamento. Não quero com isto dizer que, devemos inventar dificuldades quando fotografamos, mas devemos pensar sobre aquilo que estamos a fazer, e perceber se, realmente a maneira mais fácil, é a melhor maneira de obtermos aquilo que queremos. Por vezes, os atalhos, metem-nos em trabalhos. Às vezes, é melhor calar o co-piloto, e encontrarmos o nosso próprio caminho, o nosso estilo, a nossa identidade enquanto fotógrafos.

© Fernando Kaskais

4ª –“Se a sua vida quotidiana parece pobre, não a culpe; culpe-se a si mesmo; Admita que não é suficientemente poeta para descobrir as suas próprias riquezas; Porque para o criador não há pobreza, e nenhum lugar pobre é indiferente “. Acontece tão facilmente, culparmos tudo e mais alguma coisa, menos a nós próprios por não conseguirmos as fotos que queremos. Quantas vezes já me aconteceu isto. Depois, um dia, percebi que quando mudei a minha perspectiva, e tentei ver como poderia trabalhar em torno desses obstáculos que eu próprio criei, acabei por descobrir novas oportunidades. Estes obstáculos podem muito bem ser as restrições que nos levam a fotografar em diferentes circunstâncias, e de novas formas, e ser o ponto de partida para uma nova direcção no nosso trabalho. Há sempre uma solução alternativa, podemos usar as deficiências que sentimos para fotografar, e transformar isso numa vantagem, ou mudar a situação…

Continua…

Rainer Maria Rilke e a Relevância da Poesia na Fotografia parte II

© Fernando Kaskais

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