Uma Fotografia é uma conversa

© Fernando Kaskais

Uma Fotografia é uma conversa

Durante muito tempo, encarei a fotografia “apenas” como uma apresentação visual. Uma única fotografia deve ter uma história, e essa história é a que escolhemos, entre outras, para apresentar. Uma série de imagens deve funcionar como uma narrativa completa, com início, meio e fim e, de preferência com algum drama. Isso ainda é válido, mas não leva em conta a dinâmica entre fotógrafo e espectador. Porque, a verdade é que não há dois indivíduos iguais, e mesmo se uma das pessoas nessa relação permanece estática, outra pode trazer consigo o seu próprio conjunto de valores, preconceitos, expectativas e associações. Desta forma, podemos dizer que a história nunca pode ser a mesma para cada pessoa. Nesse sentido a apreciação de uma foto é mais como uma conversa.

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O resultado de uma conversa não depende do assunto, mas da relação, ou falta dela, entre os participantes. Através de um meio como uma fotografia, como é que se pode estabelecer essa relação, ou mesmo abrir o diálogo, quando o fluxo de comunicação é inteiramente unidireccional? Não é possível reajustar uma imagem dependendo das preferências do espectador. O fotógrafo diz tudo o que tem a dizer de antemão, e o público interpreta como quiser. Há alguns tópicos universais que suscitam reacções semelhantes, tem algo a ver com as emoções humanas, vistas espectaculares, eventos incomuns, amor, sofrimento, etc. Infelizmente, bem como a maioria dos discursos, seja material escrito ou outro tipo de diálogo, nem tudo o que é dito vale a pena ouvir, nem sequer vale a pena tentar descobrir se existem segundas leituras.

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Na verdade, é extremamente difícil fazer uma imagem que seja imediatamente atraente, e dispense análises profundas e filosóficas. A luz, e a composição, são as  ferramentas do fotógrafo, mas a maioria dos espectadores não registra isso a um nível consciente. Eles (espectadores), normalmente, observam o assunto e o contexto. Nós, fotógrafos, usamos essas ferramentas especificamente porque elas nos permitem controlar a maneira como uma imagem é lida, tentando não chamar a atenção para a técnica utilizada. O papel da composição é excluir o desnecessário da imagem, para que o espectador se concentre exclusivamente na ideia que estamos a tentar passar. É o mesmo que na escrita usar frases precisas, e bem medidas, evitando o excesso de adjectivos.

© Fernando Kaskais

Como em qualquer bom diálogo, o interlocutor deve ficar curioso e querer saber mais sobre aquilo que estamos a dizer. Este equilíbrio é complicado, se fazemos algo minimalista, não será muito minimalista? Se a imagem é um pouco vaga, não será vaga de mais? Qual é a linha crítica e a essência de um assunto, o mínimo necessário para identificar instantaneamente o que estamos vendo? Quanto, e o quê, se deve deixar à imaginação do espectador? Há tantas opiniões, quanto pessoas, e não é possível satisfazer a todas. Se o fotógrafo tem um público definido, esse publico saberá aquilo que ele quer dizer, porque á partida o fotógrafo estará a fotografar para esse mesmo público. Pessoalmente, eu não acredito num público alvo, assim como quando escrevo, não escrevo para ninguém em especial. Não vale a pena procurar  gratificação instantânea, isso não existe. As minhas imagens transmitem aquilo que me apetece dizer, e se exigem alguma reflexão para serem apreciadas, cabe a quem as vê concluir se essa exigência vale a pena, ou não, ser cumprida. As fotografias são como pássaros, depois de as soltarmos no mundo, voam para onde quiserem. Boas fotos.

© Fernando Kaskais
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