Da Ambiguidade na Fotografia

© Fernando Kaskais

Da Ambiguidade na Fotografia

As boas (e as outras) fotografias podem ser divididas em dois campos: o literal e o ambíguo. Do ponto de vista interpretativo e artístico, uma fotografia é talvez a mais literal de todas as formas de arte. Assumindo que há um pós-processamento mínimo, a tradução entre realidade e interpretação final é previsível e consistente, a imagem daí resultante tem que obedecer às leis da física, pelo menos aparentemente, e estas são geralmente bastante consistentes. Como podemos então usar a ambiguidade como vantagem para fazer uma imagem mais forte? Entre outros, podemos usar estes três conceitos.

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1º – Estética. Podemos tentar criar uma imagem com algumas interpretações extras. Não só na composição, mas também a nível de estrutura e de interpretação. Em primeiro lugar, a imagem tem que ser esteticamente agradável ou desafiadora para atrair a atenção. Segundo, tem que ter uma mensagem óbvia para captar a atenção do espectador. Terceiro, tem que ter elementos que permitam interpretações alternativas, e que recompensem a atenção que o espectador dedica á foto. Tais elementos podem tomar a forma do inesperado, o escondido, o justaposto, ou o ambíguo. É um homem ou uma mulher? Onde estão as pernas, ou os braços? São estes objectos realmente empilhados ou é um truque de perspectiva? Existe realmente um edifício ali, ou é apenas um reflexo? Esta paisagem está numa escala real, ou é uma macro? Quanto mais uma imagem puder envolver o espectador, mais tempo ela será observada, por consequência o espectador pensará mais sobre ela, e portanto, tem mais possibilidades de ser lembrada.

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2º – Imaginaçao. A imaginação é o que une a lacuna entre a apresentação literal e a tradução da ideia na mente do espectador. Ao criar uma foto ambígua vamos permitir ao espectador que ele veja aquilo que quer ver nas áreas da foto que não estão perfeitamente definidas. Ele não pode ver fora da foto ou nas sombras mais negras. Uma silhueta não tem rosto. O espectador tem que tentar adivinhar o humor da figura da silhueta pela sua linguagem corporal, mas não pode ter a certeza. Psicologicamente é para nós difícil colocar-nos na posição de uma figura cujo rosto é completamente diferente do nosso, mas torna-se mais fácil se não podermos ver as suas características faciais. A velha máxima que diz: “o livro é sempre melhor do que o filme”, é porque um filme é uma interpretação muito literal. Um livro deixa uma enorme quantidade de interpretações possíveis (na realidade uma, ou até várias, para cada leitor), para o público decidir o quão estreita ou larga é a cintura da heroína, ou qual é a verdadeira altura do herói, se o cavalo é branco, ou preto, ou se naquela cena há uma nuvem no céu ou não. Só ficamos infelizes quando as nossas expectativas não são atendidas.

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3º – Informação. Isto leva-nos ao cerne da questão: é preciso dar apenas informações suficientes para o espectador ter uma boa ideia do que estava acontecendo na mente do fotógrafo quando este fez a foto, mas não mais do que isso. Certifique-se apenas de que há informação suficiente imediata e óbvia para manter a atenção e incentivar a visualização. Reduzir uma ideia complexa para um número mínimo de elementos é uma das coisas mais difíceis de fazer; No entanto, para fazer uma imagem muito forte, o fotógrafo deve entender exactamente o que eles (elementos) estão a tentar dizer, e assim saber o que é absolutamente necessário e o que não é. A fotografia é um diálogo entre o fotógrafo e o espectador. Não há nada de errado em deixar que o espectador use a sua própria imaginação para se entreter, para se iludir, desiludir ou sentir outro sentimento qualquer. Boas fotos.

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