Como Ser Um “Fotógrafo Espartano”.

© Fernando Kaskais

Como Ser Um “Fotógrafo Espartano”.

“Cada vez mais me assemelho ao caranguejo: olhos fora do corpo, vou imaginando de lado, hesitante entre duas visões: a dos olhos e a da câmera.” Fernando Kaskais

Juntamente com o Minimalismo, com o Tao e com o Zen, a filosofia Espartana sempre me fascinou. A capacidade física e mental, o sentido de dever e a capacidade de levar uma vida frugal, foi algo que sempre me interessou, como hipoteticamente capaz, de ser aplicado á fotografia. Como é, e o que é que, o conceito de desprendimento, pode trazer á minha (nossa) fotografia. Como é que posso ver diminuir a minha dependência do equipamento? Ou da necessidade de viajar para locais exóticos para fazer fotografia ainda mais exótica? Vamos fazer uma mistura de historia e ficção, e  analisar 5 cenários “espartanos”.

1. Apenas uma câmera e uma lente por ano. Aos guerreiros espartanos era dada apenas uma capa para usar durante todo o ano. (Isto segundo a história descrita por Plutarco) Andavam em tronco nu em público. Porque é que não experimentamos impor a nós próprios, usar só uma câmera e uma lente durante um ano (vá lá, um mês). Não é fácil, a maior parte dos fotógrafos que conheço tem mais do que uma câmera e uma lente. Nos dias de hoje, felizmente, por um lado, e infelizmente por outro, sofremos do síndrome da abundância. O facto de se possuir muitas câmeras e lentes, pode ser mais um motivo de stress, do que de alivio, dada a possibilidade da escolha. O leitor imagine-se um “fotógrafo espartano”, e obrigue-se a só fotografar com a mesma câmera, e com a mesma lente durante um ano (ou um mês). Como já disse, vai ver que não é fácil. Eu já tentei e não aguentei um ano. O máximo que consegui foi cinco, ou seis meses, se não me engano.

 

© Fernando Kaskais

2. Enfrentar o frio. O frio é uma das minhas fraquezas. Ter medo de ter frio é muito condicionante. Os espartanos eram conhecidos por serem capazes de enfrentar o frio. Ser capaz de resistir ao frio tem alguns benefícios. Primeiro, se tivermos que viajar pode levar-se menos casacos, e menos camisolas. Ou seja, menos peso, e menos volume. Segundo, economiza-se na roupa de inverno que é cara. Tentarmos adaptar-nos ao frio, pode passar por tomar banhos de água fria, embora isso possa ser doloroso no inverno, permite-nos enfrentar melhor o frio lá fora. O que também nos permite ir para a rua fotografar, em condições climatéricas menos vantajosas.

3. Dieta frugal. Segundo reza a história os homens espartanos eram alimentados apenas o suficiente para satisfazer suas necessidades básicas, ou seja, apenas para matar a fome. O facto de estarem quase sempre famintos tornava-os mais aptos, menos lentos, mais fortes. Quase todos nós nos comportamos como crianças, no que diz respeito á fome. Queremos comer, temos que ter comida. No entanto se viajarmos muito, nem sempre temos restaurantes, ou supermercados, á mão de semear para arranjar comida. Pode não haver nada para comer, mas isso não nos deve impedir de fazer fotografia se tal for necessário. Podemos treinar isto, saltando uma refeição ou outra, não tomar o pequeno-almoço, ou o almoço, ou o jantar, conforme dê, ou não jeito perante aquilo que queremos fazer. Se estivermos no estrangeiro e quisermos poupar tempo e dinheiro, a melhor coisa a fazer é comer o alimento mais barato, mais frugal, e mais nutritivo possível, apenas para matar a fome. Os ovos são uma boa solução, bem como café. Saber resistir á fome, pode parecer que não tem nada a ver com fotografia, mas tem. Pode fazer com que não percamos boas oportunidades para fotografar, simplesmente porque temos que ir “matar o bicho”.

© Fernando Kaskais

4. NUNCA entre em competição. Em Esparta não era permitido qualquer jogo que tivesse vencedor e perdedor. Procurava-se que os espartanos nunca sentissem o peso da derrota. Na fotografia, um conselho que deixo a toda a gente é que, NUNCA entrem em concursos, ou competições de fotografia, em que haja vencedores, e por consequência, perdedores. NUNCA se disponibilize para comparar a sua fotografia com a dos outros. Porque se não ganhar, torna-se um perdedor, e a fotografia nunca deve ser encarada nessa perspectiva. A fotografia é uma forma de expressão, não uma forma de afirmação. As suas fotografias não têm culpa da sua falta de técnica, ou de inspiração, para mais tarde virem a ser comparadas com outras, que também não tem culpa de que, quem as tirou tivesse mais talento. A sua fotografia é única, boa ou má, é sua, é como um filho, que não se rejeita, nem se compara. Não dê muita importância às redes sociais, nem aos likes nem aos fóruns de fotografia. Não quer dizer que sejam proibidos, somente que, lhes devemos dar a importância que realmente tem. Ou seja, pouca, ou mesmo nenhuma.

5. Aptidão física e coragem. Se o leitor quer fazer “street photography” convêm estar em forma fisicamente. Tanto para caminhar muito, como para correr se for preciso fugir de alguma situação menos amigável. Os espartanos valorizavam a aptidão física, e glorificavam a força. Procure estar em melhor forma possível, se faz isso nadando, no ginásio ou a caminhar, isso é consigo. Convêm também ter uma certa coragem para fotografar aquilo que quer fotografar, sem medo. Não se deixe intimidar pelas situações, parta para cima do assunto que quer captar sem ter medo de lidar com situações negativas. Como já lhe deve ter sucedido. Isto é mais fácil de dizer do que fazer. Mas lembre-se, se seguir esta ideia, estará a tentar ser um “fotógrafo espartano”. Ou pelo menos, com mais auto controle. Não tendo medo de correr riscos (calculados claro), porque sem correr riscos, provavelmente nunca fará nada de diferente.

© Fernando Kaskais

Conclusão. Os valores antigos são muito mais consistentes do que os modernos. Os valores modernos tornaram-nos fracos, flácidos e ingratos. Vivemos na época do supérfluo, do faz de conta, da gratificação instantânea, do descartável, onde se privilegia a forma em relação ao conteúdo.  Em vez de sermos gratos pelas câmeras que já possuímos, estamos constantemente insatisfeitos e queremos mais, e mais. A maior parte das vezes não temos coragem suficiente, para fazer o tipo de fotografia que queremos fazer. Normalmente, “fazemos” fotografia para os “amigos” “likar” e afagarmos o ego, em vez de fazermos fotografia reflexiva e criativa.  Eu sofro do mesmo síndrome do equipamento, quantas vezes dou por mim a pensar que uma nova câmera irá desbloquear o meu bloqueio criativo temporário. Mas, eu é que sou o meu maior obstáculo para desenvolver essa criatividade. Não tenho que arranjar desculpas, tenho é que fazer mais fotos. A fotografia, assim como a vida, não é fácil, aliás, é uma guerra. Por isso prepare-se para a luta. Boas fotos.

 

© Fernando Kaskais

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