Proust, e Como Abrir os Olhos Para a Fotografia.

© Fernando Kaskais

Proust, e Como Abrir os Olhos Para a Fotografia.

Proust escreveu um ensaio em que se propôs devolver um sorriso ao rosto de um jovem triste, invejoso e insatisfeito. A vulgaridade do cenário da sua vida quotidiana contrastava com o gosto do jovem por coisas bonitas e caras que não tinha dinheiro para comprar. O jovem invejava os banqueiros que podiam decorar as casas como queriam. Proust simplesmente antecipou, o que acontece nos dias de hoje, em que as marcas, e as suas campanhas publicitárias, impõe a sua ditadura não só sobre os jovens mas sobre todos nós. E por falar em nós, nós, os fotógrafos, também vivemos um pouco essa frustração de nunca termos aquilo que desejamos, a câmera perfeita. Mas a verdade é que não há equipamentos perfeitos, ou melhor, o equipamento (câmera) perfeito, é exactamente aquele que temos connosco. Deste ensaio de Proust, podemos tirar cinco lições que são úteis para desenvolver uma filosofia fotográfica.

 

1ª – A beleza da banalidade. Proust propôs-se levar o jovem ao museu para ver uns quadros de Chardin. Pode parecer estranho já que Chardin não pintava príncipes ou palácios. Chardin pintava “coisas vulgares”, utensílios de cozinha, taças com fruta, copos de vinho etc. As figuras humanas que ele pintava nunca faziam nada de heróico, liam ou bordavam, chegavam ou partiam. A ideia a reter aqui é que estes quadros eram uma janela para um mundo imediatamente reconhecível, como o nosso. Porém invulgarmente maravilhoso e tentador. O que é isto nos diz enquanto fotógrafos? Que podemos fotografar coisas banais e corriqueiras, e mesmo assim conseguirmos fazer excelentes fotografias. Ou seja, os nossos temas não têm que ser sempre cheios de acção, em locais de cortar a respiração com modelos deslumbrantes ou bizarros, ou simplesmente exóticos.

© Fernando Kaskais

2ª – Estímulos visuais. A ideia de Proust é que não existe nenhuma reflexão, ou decisão consciente atrás da nossa escolha daquilo que nos agrada visualmente. O que é que nos leva a fotografar palácios, mas não cozinhas, ou porcelana em vez de barro? Estas escolhas no entanto não são completamente naturais. A felicidade que pode advir de um segundo olhar é fulcral no conceito de Proust; revela até que ponto as nossas insatisfações podem resultar de não olharmos adequadamente para as nossas vidas, e não de algum problema inerente a elas. A nossa fotografia não segue o caminho que gostaríamos que seguisse? Isso é um problema conceptual nosso, e não se deve ao facto de não possuirmos o ultimo modelo da Leica ou Hasselblad (passe a publicidade).

 

3ª A vida, e a imagem que temos dela. No famoso episódio da madalena, o narrador ao provar o bolo, descobre subitamente, que não era a sua vida que tinha sido medíocre, mas a imagem da vida que guardara na sua memória. Esta é uma distinção chave para Proust, porque a razão pela qual a vida pode ser considerada banal, embora em certos momentos nos pareça bela, é que habitualmente formamos o nosso juízo, não com base na vida propriamente dita, mas com base em imagens muito diferentes que nada preservam da vida, e assim julgámo-la levianamente. Traduzido para a arte da fotografia, quer dizer que, as imagens pobres que muitas vezes fazemos, advêm da nossa incapacidade de registar convenientemente aquilo que vemos no preciso momento em que ocorre. A memória do intelecto, e dos olhos, dá-nos apenas fac-similes imprecisos daquilo que observamos, se não soubermos usar a intuição, aplicando-a devidamente á nossa câmera, ela dá-nos precisamente a mesma coisa que nós lhe damos a ela. Uma imagem pobre, ou banal, no sentido da falta de transcendência. Ou seja, não é a realidade que nos cerca que é pobre e desinteressante, é o nosso olhar que a vê assim. 

© Fernando Kaskais

4ª A imagem errada. O narrador de Proust imagina ir para a beira-mar, influenciado por um livro sobre o período Gótico medieval. Imagina uma Normandia meio deserta, habitada por tribos míticas, um mar furioso etc. Mas quando chega, o local está cheio de turistas, restaurantes, lojas e hotéis. A desilusão ilustra a importância vital das imagens para a apreciação que fazemos daquilo que nos rodeia, juntamente com o risco que representa sair de casa com a imagem errada. Esta história reforça uma vez mais, a ideia de que a beleza é algo a descobrir e não algo que se encontre passivamente. Para nós fotógrafos, este conceito ajuda-nos a não sair de casa já com imagens pré definidas, sobre aquilo que vamos fotografar. Devemos estar atentos aos pormenores, e ao inesperado. Por vezes, um cenário modesto pode esconder uma excelente fotografia.

 

5ª – A busca do reconhecimento. Proust foi acusado de ser simplesmente um snob, um diletante, membro do jet-set que frequentava a casa de fulano ou sicrano.  Proust confessou que se sentia atraído por uma vida de ostentação, e tentara fazer amizade com aristocratas. No entanto, também confessou que ficou desiludido com aquele ambiente, e que as imagens de encanto que lhe haviam incutido o desejo de se aproximar dos aristocratas simplesmente não igualaram as realidades da vida aristocrática. Reconheceu que era preferível ficar em casa, e que podia ser tão feliz a falar com a criada como com a princesa Caraman- Chimay.  Percebeu que o duque de Guermantes era um homem boçal, cruel e vulgar, menos interessante que o seu mordomo. O que é que isto nos diz enquanto fotógrafos? Que são fúteis, e vãs, as nossas tentativas de nos tornarmos fotógrafos proeminentes á custa de socializarmos, e quem sabe, até sermos convidados para membros da Magnum, a aristocracia da fotografia. Em vez disso, será melhor concentrar-nos na nossa fotografia, desenvolver a nossa filosofia fotográfica, juntamente com a nossa técnica, e tudo o resto vem (ou não vem) por acréscimo. Quando fotografamos devemos estar plenamente concentrados naquilo que fazemos, e não a pensar no que a, ou b, vão dizer daquela magnífica fotografia que estamos a fazer naquele preciso momento.  Ou, onde a vamos expor, ou quanto é que vamos cobrar por ela. Ou seja, é mais inteligente, e mais viável, pensar em fazer grandes (boas) fotografias, de que nos fazermos grandes, através das fotografias. Boas fotos.

© Fernando Kaskais
© Fernando Kaskais

 

 

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