O Fotógrafo Invisível.

© Fernando Kaskais

“The ability to make a truly artistic photograph is not acquired off-hand, but is the result of an artistic instinct coupled with years of labor.” – Alfred Stieglitz

O Fotógrafo Invisível.

H. Cartier Bresson, já muito depois de ter deixado de fotografar, disse numa entrevista que o fotógrafo era o “anti-vedeta” por natureza. Numa festa, ele estará lá para fotografar os outros, e não para ser o centro das atenções. “Ei, ó fotógrafo tire aqui uma fotografia!”. Foi mais ou menos esta a expressão que ele usou, para sugerir, que ao contrário dos pintores, escritores ou realizadores de cinema, “não há” fotógrafos vedetas. Paradoxalmente, ele próprio veio a tornar-se numa, passando a ser uma espécie de “tesouro nacional francês”.
No entanto, é verdade, que nos dias de hoje não há fotógrafos “Rock Stars”. Os fotógrafos que se tornaram ícones com o decorrer do tempo, na sua época eram praticamente todos desconhecidos do grande público. Quem é que reconhecia o Ansel Adams na rua, o Elliott Erwitt, ou o Josef Koudelka , com a excepção de um ou outro apaixonado pela fotografia? Aliás, o Koudelka ainda é vivo, e a maioria das pessoas nunca ouviu falar dele, mesmo, muitos daqueles que se interessam pela fotografia enquanto arte.
Hoje em dia, tirando o caso de Sebastião Salgado, praticamente não há fotógrafos que tenham o estatuto de vedeta internacional. E ainda bem, diríamos nós. Porque, agrupar fotógrafos em escolas ou movimentos é um mal-entendido, baseado na analogia, inevitável mas invariavelmente inexacta, entre fotografia e pintura. Ter fotografias expostas numa galeria ou num museu, não significa automaticamente que essas fotografias tenham qualidade. Os museus possuem um respeito tendencioso pelo profundamente banal, e algumas galerias fazem o mesmo, ou então, fazem exactamente o oposto, apostando no profundamente bizarro e incompreensível. Isto leva a que o gosto fotográfico tenha tendência para ser, global, ecléctico, permissivo e em última analise tente negar a diferença entre o bom gosto e o mau gosto.
Na verdade, como a fotografia tem por tema o mundo inteiro, há espaço para todo o género de gostos. As preferências dos espectadores são meramente reactivas. Isto porque a linguagem com que as fotografias são geralmente avaliadas é extremamente limitada, por vezes é parasitária do vocabulário da pintura; composição, luz, tonalidade etc. Ou então, são analisadas através de juízos ainda mais vagos, como por serem subtis, interessantes, vigorosas, complexas ou simples.
Isto tudo para dizer o quê? Para dizer que, para ser explicada como arte, a fotografia tem de cultivar a noção do fotógrafo como auteur, e todas as fotografias tiradas pelo mesmo fotógrafo devem constituir um corpus. Ora, embora estas noções possam ser mais facilmente aplicáveis a uns fotógrafos do que a outros (por exemplo a Man Ray), a verdade é que os significados que uma fotografia adquire quando vista como parte de uma obra individual, não são particularmente esclarecedores se o critério for a visão fotográfica.
A Fotografia é uma espécie de arte esquizofrénica, já que quanto maior e variada for a obra de um fotógrafo com talento, mais parece adquirir uma espécie de autoria múltipla e não individual. Muitas das fotografias publicadas pelos maiores nomes da fotografia parecem trabalhos que poderiam ter sido feitos por qualquer outro profissional com talento da mesma época. Nos dias de hoje, na internet, alguns dos nomes mais conhecidos ligados á fotografia, são péssimos fotógrafos, e ganham a vida a promover produtos (por exemplo o intragável K. Rockwell).
Conclusão: A Fotografia não é uma maneira fácil de ganhar a vida e de nos tornarmos famosos perante a família, os amigos, os vizinhos ou o resto do mundo. A Fotografia (enquanto arte), é um meio maravilhoso para aprimorarmos a nossa visão do mundo, e educarmos o nosso sentido estético. É uma ferramenta filosófica com um mecanismo psicológico complexo, difícil de definir, e de dominar. É um exercício intelectual, que exige que abandonemos o EU,EU,EU, e nos esqueçamos de nós mesmos, atrás da lente. Exercício, esse, que ao mesmo tempo que exige ao fotógrafo que se torne invisível, lhe permite exorcizar a profunda depressão que advém de se sentir só perante si mesmo, projectando em múltiplas imagens um mundo do qual muitas vezes se sente excluído, ou voluntariamente se exclui. Se, pelo meio fizer algumas boas fotos, isso é fotografia, e é óptimo. Boas fotos.
© Fernando Kaskais
© Fernando Kaskais
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