Proust, e a Busca da Fotografia Perdida

© FERNANDO KASKAIS
Proust, e a Busca da Fotografia Perdida

Já subscrevi a ideia em vários artigos anteriores, de que um bom fotógrafo não se deve interessar só pela fotografia, nem somente pelas artes visuais. A literatura, e a poesia, podem dar,  e dão, uma grande ajuda na percepção que o fotógrafo pode ter sobre mundo e a maneira como olha para ele. Neste artigo quero abordar a influência que Proust (um dos meus autores favoritos) pode ter na conceptualização da fotografia. Embora, segundo Susan Sontag; Proust não fosse muito amante da fotografia: – “Sempre que Proust menciona as fotografias, fá-lo com desdém: como sinónimo de uma relação superficial, exclusivamente visual, meramente voluntária com o passado, cujo rendimento é insignificante comparado com as descobertas profundas que devem ser feitas respondendo a estímulos dados por todos os sentidos, uma técnica a que ele chamou de “memória involuntária”.

Uma das coisas que os fotógrafos aprendem rapidamente ao examinar as suas próprias fotografias é que, a nossa percepção, essa confluência de olho e mente, é muitas vezes uma responsabilidade para o nosso trabalho, enfatizando elementos na cena que uma fotografia não consegue capturar.  Aprender a ver é, de muitas maneiras, aprender a desconfiar do aparelho perceptivo com o qual nascemos, é aprender a ver o mundo como abstracções congeladas cercadas por uma moldura. Numa passagem do Volume Três: O caminho de Guermantes de Proust há uma descrição impressionante de como ver o mundo como um fotógrafo. Nela, Proust criticava a ideia, a própria possibilidade, de viver puramente no presente, para ele as nossas vidas são uma mistura de memória e antecipação, e o presente não passa de uma coisa crua e imperfeita. Como tal, ele era crítico da fotografia, apesar de usar imagens fotográficas persistentemente ao longo do seu trabalho. Não vou aqui reproduzir essa passagem porque é muito longa, como quase todas as descrições de Proust.

O que interessa salientar é que, Em Busca do Tempo Perdido, Proust apresenta as fotografias como veículos de percepção: – “O fotógrafo, chamado para tirar uma fotografia de lugares que nunca mais serão vistos novamente… cada olhar habitual é necromancia, e cada rosto que amamos um espelho do passado … os nossos olhos, carregados de pensamento, não prestem atenção… como a tragédia clássica não presta atenção, a qualquer imagem que não contribui para a acção da peça… Quando Proust vê uma fotografia da sua avó já falecida,  exclama “É a avó, e eu sou o seu neto”, assim como um amnésico redescobre o seu nome, ou como um inválido muda de personalidade. A fotografia alcança o que a avó de Proust pretendia. Em vez de lembrá-la como doente e debilitada, Proust vê na fotografia a sua avó, que parece tão elegante e saudável. As fotografias não podem deixar de registar o presente no momento em que são criadas.

Para Proust, a sua avó, ou a memória dela, era ele próprio, dado que só a “via” com a sua alma, sempre no mesmo ponto do passado, através da sobreposição de memórias contíguas, e de repente, ela está ali, na sua sala de estar, em forma de fotografia. Se a fotografia não pode corresponder às conquistas da memória, e da exploração  da história pessoal, pelo menos, ela fornece um instrumento valioso para examinar a memória e seus mistérios, sendo ela (fotografia) própria, um instrumento de criar memórias, e mistérios. Paradoxalmente, Proust desdenhava da fotografia, mas a sua maior obra, Em Busca do Tempo Perdido,  pode equiparar-se a um enorme trabalho fotográfico, pois toda ela é, exaustivamente descritiva. De uma maneira um pouco abusiva, pode dizer-se que  Em Busca do Tempo Perdido é uma enorme fotografia multidimensional, e multissensorial, da vida de Proust. Só não sabemos se ele sorriu para a fotografia. Parece que não, mas isso também pouco importa. Boas fotos.

F. Kaskais Photography

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